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A mulher e o desejo: mitos, preconceitos e o valor do diálogo 

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“…após ser interpelada pela serpente, a mulher (Eva), desobedecendo a ordem de Deus, come do fruto, oferecendo posteriormente ao homem (Adão), que também o come, provocando o que se chama de pecado original da humanidade. Colocam Adão e Eva como um homem só, sendo que Eva representa os sentimentos e Adão a inteligência. A serpente só poderia tentar o Homem (Adão e Eva) pelos sentimentos e paixões, representado por Eva. Eva então leva a tentação até a inteligência, representado por Adão”.

Ser Mulher é uma construção social, “Não se nasce mulher: torna-se.” Simone de Beauvoir, (1980) consolidada a partir das relações interpessoais realizadas no tempo, espaço e contexto social no qual a mulher está inserida. Resgatando as memórias de um contexto histórico, podemos reconhecer a mulher anunciada, como aquela responsável pela origem à vida, que cuida, protege e educa, ficando submetida à figura do outro – o Homem – e a este era dado e permitido a condição de saber e decidir sobre questões da ordem do individual e pessoal desta mulher.
No campo da Sexualidade, as mulheres tinham um papal específico, passivo e em constante submissão ao poder e vontade do falo. Todo um cenário erótico, ao nível das próprias fantasias e pensamentos não eram assumidos no seu quotidiano. As mulheres não se interessavam por nada que fosse de cariz erótico e sexual, mesmo a masturbação era mito e tabu. Nem queixas apresentavam. Nos dias de hoje, parafraseando Júlio Machado Vaz “As mulheres já falam mais sobre sexo” e têm uma vida erótica mais activa, e actualmente, com a internet e com a possibilidade de aceder em privado, o mito caiu. As mulheres, têm, pelo menos curiosidade e abordam com mais facilidade na consulta e no seu dia-a-dia necessidades e desejos. Esta alteração comportamental poderá ser o resultado das mudanças significativas na função social que é exigido à Mulher; as suas responsabilidades quer profissionais quer sociais impeliram a Mulher a conquistar uma responsabilidade diferente ao nível da sua sexualidade e da sua intimidade e da necessidade de o verbalizar para o tornar mais real e vivo. No entanto, o desejo hipoactivo nas mulheres, cito a perda de interesse sexual numa relação afectiva, erótica e sexual configura-se muitas das vezes nas queixas apresentadas, que para além de se sentirem pouco desejadas, queixam-se de ser menos cortejadas, o que é diferente. Nesse sentido, em relações heterossexuais, o homem para além do poder do falo que lhe foi culturalmente incutido, falta-lhe o encanto no erotismo da palavra, da sedução e do toque na descoberta dos pontos G da alma para que a líbido da mulher seja a fantasia despoletada e o alimento do desejo e se concretize.
Poder-se-á dizer que o desejo feminino não é diferente na sua essência de outrora, hoje a Mulher que conquista a sua liberdade e independência material acresce o aumento da sua responsabilidade social. Tudo isto porém não implica que deixe de querer ser menos amada e menos desejada. Requer antes pelo contrário mais responsabilidade ao Homem, melhor atenção e mais capacidade de resposta no envolvimento emotivo e vice-versa.

António Américo Salema
Sexólogo Clínico

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