Agostinho Beça

Agostinho Beça

Nascido em Mirandela, é licenciado em Engenharia Florestal, pós-graduado em Gestão Cinegética e Turismo de Natureza e mestre em Gestão de Recursos Florestais.
Técnico da Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Norte, exerceu funções de assessor da Direcção.

 

Ainda a Gestão Cinegética no Nordeste Transmontano

Os leitores que me perdoem por insistir neste tema, mas julgo que o assunto é pertinente e que nunca será demais dar opinião no sentido de agitar as consciências de quem procura gerir a caça no Nordeste Transmontano.

Tal como acontece noutros aspectos das relações humanas, também em matéria de gestão cinegética, na generalidade das trocas de impressões, há uma tendência natural para subestimarmos aquilo que desconhecemos!

Esta postura é típica dos caçadores mais “especializados” numa ou noutra espécie cinegética, num ou noutro modo de caçar; caracteriza também os defensores de um ou de outro modelo de ordenamento e exploração da caça, os frequentadores de diferentes zonas do país… enfim, os que “sabem disto e os que sabem daquilo”…

Tudo estaria bem porque o direito à diferença no modo de pensar é inquestionável. Aceitar-se-ia a subestima do desconhecido, não fossem algumas acções, umas precipitadas, outras algo inconscientes, que trazem graves prejuízos ao equilíbrio natural dos ecossistemas e fazem perigar a sobrevivência das espécies do nosso interesse e das que, embora parecendo insignificantes para os caçadores, na verdade, interagem positivamente com as primeiras e muito contribuem para a biodiversidade e “saúde” dos territórios de caça.

Pois bem, se não existissem essas formas de agir e de intervir no terreno, poderíamos pensar que as questões da gestão cinegética estariam muito próximo de ser resolvidas e o “mundo da caça” poderia encaminhar-se para uma quase perfeita harmonia, com todos os intervenientes satisfeitos!

Mas… não é assim!

No que respeita à caça maior, assiste-se a um excesso de capturas por processos pouco racionais e alguns até condenáveis, o que, naturalmente, se tem reflectido nos quadros de caça das montarias; quanto às principais migradoras de inverno, os tordos, abstenho-me de juízos sobre a utilização de meios que, apesar de ilícitos, estão cada vez mais vulgarizados e até parece que se tornaram normais… e todos se lamentam: – não há nada…!

Relativamente à caça menor sedentária, sem cuidar de perceber as verdadeiras razões da sua diminuição e procurar resolvê-las, será difícil melhorar o panorama!

Penso que todos conhecemos a “técnica” dos coelhos que alguém recomenda por serem muito-bons-e-vacinados, mas que só-podem-ser-entregues-durante-a-noite, normalmente por intermediário de um fornecedor desconhecido que só-aceita dinheiro-vivo e não-emite-factura-nem-guia-sanitária.

A situação da emblemática perdiz, a julgar pelos queixumes de muitos amantes da caça desta espécie em estado natural, também não é melhor… Não resultou a parafernália de “técnicas” usadas até agora, desde a “colocação de casais na Primavera”, às “soltas no fim da caça”, passando ainda pelas “largadas para abate e as que sobrarem ficam para criar”, também pelas “gaiolas de adaptação” e por muitas outras experiências, todas infrutíferas como é sabido… No final, a culpa foi do excesso de raposas e aves de rapina…!

Não será preciso muito esforço para se perceber que o caminho tem de ser outro!

Sabe-se que a caça é reconhecida como uma interessante actividade para a economia do interior do país e, por outro lado, há fundos comunitários disponíveis, desde que cumpridos os requisitos necessários, através do Programa de Desenvolvimento Rural 2014-2020 (PDR 2020), para que se possa fazer gestão séria, racional e sustentada deste recurso natural renovável.

Então…?

Exige-se outra postura, uma mudança de paradigma – a profissionalização da gestão cinegética. E propõe-se um modelo diferente, tendo em vista ganhar escala – a criação de Agrupamentos de Entidades Titulares de Zonas de Caça, com Planos Globais de Gestão.

 

A Raízes – Trás-os-Montes e Alto Douro em Revista é um projecto editorial generalista, de âmbito regional, cuja publicação periódica é mensal.

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