Caminhar pela Rota da Terra Fria Transmontana

Por Joana Martins Gonçalves

OOutono demorou em chegar mas já podem ver-se e sentir-se as cores e os aromas da estação. Nesta edição sugerimos uma visita à Terra Fria Transmontana. Já visitou?
Vale sempre a pena voltar no Outono, aqui nada se repete. Ao longo das próximas edições, iremos apresentar os quase 500 quilómetros do percurso da Rota, que atravessa os concelhos de Bragança, Miranda do Douro, Mogadouro, Vimioso e Vinhais. Esta edição sugerimos o Troço 1 (ver na imagem) que se inicia na aldeia de Quintanilha e termina em Avelanoso. Vamos caminhar?

De Quintanilha de Vimioso
CAIXA
Características:

• Extensão: 55.61 km
• Altitude máxima: 791m (Rio Frio)
• Altitude mínima: 446m (Ponte sobre o Rio Maçãs)


Para nos orientarmos nesta rota, acedemos ao site da Rota da Terra Fria Transmontana, onde encontramos detalhadamente todos os passos de cada troço.
Partilhamos aqui o Troço 1 que neste caso se inicia em Quintanilha:
‘Se iniciar a Rota em Quintanilha, percorra o arruamento principal da aldeia a partir da Igreja Paroquial. Em algumas casas encontrará, ainda, no remate de portas e janelas, lousas insculpidas com cronogramas e motivos decorativos curiosos.
Transposto o dorso do interflúvio (entre os rios) Maçãs-Caravela, desça pelo seu flanco poente ao longo do lameiro, até próximo da confluência destes rios, mas não vire para a

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fronteira, siga a estrada nacional no sentido oposto. O enorme viaduto é a continuidade do A4 para a N122 em Espanha.
Nas proximidades deste cruzamento verá assinalada a Capela de Nossa Senhora da Ribeira, um templo gótico que merece visita, que também a mereceu da Rainha Santa Isabel quando chegou a Portugal.
Tomando o rumo de Vimioso deparam-se as primeiras casas da povoação de Rio Frio e por momentos, pouco depois, a silhueta distante da cidade de Bragança. À esquerda, saída para Paçó, um pequeno aglomerado que se estende quase até à estrada e pouco depois outro desvio para Paradinha. São aldeias pequenas, empilhadas de xisto, com uma nota comum que lhes marca a diferença – a recorrente aplicação de avantajados monólitos de piçarra local para escorar varandas e firmar paredes. São as “paelas” de xisto, recurso antigo, em vias de extinção. Continuando a estrada surge, pouco adiante, o castelo de Outeiro, alcandorado numa súbita proeminência que o eleva a mais de cem metros da povoação da falda que lhe tomou o nome. Aqui, não hesite em desviar um pouco e ficará deslumbrado com a inesperada aparição da magnífica Igreja do Santo Cristo, uma prece barroca do mais erudito cinzel, imponente no desterro da raia. De um e outro lado da fronteira acolhe sentida devoção e nunca as beligerâncias que separaram as gentes lhe faltaram ao respeito. Aprecie a sua arquitetura, a sua envolvência, a abóbada, os retábulos, a sacristia. A escassa distância pode visitar também a vetusta Matriz, os antigos Paços do Concelho e o pelourinho do extinto município que aqui teve a sua sede. E se ainda lhe sobrar tempo suba o monte até às ruínas do castelo medieval. Só pela vista que daí se desfruta sentir-se-á recompensado.
Tome de novo a estrada nacional rumo ao sul, que corre sempre em planalto. Os sequeiros de centeio e trigo são esparsos entre os pousios, muitos cobertos já de mato rasteiro e o arvoredo é escasso.
À direita, uma indicação para o Santuário de S. Bartolomeu, sobranceiro às escarpas do Sabor.
Aproxima-se Argozelo, povoação grande, a maior do concelho de Vimioso, depois da sede, que não desmerece, de facto, os pergaminhos foralengos que a honraram. À saída da povoação, num outeiro a nascente, há vestígios romanos de atividades mineiras que atestam o interesse económico que este local teve num remoto passado. Ponte dos Mineiros, sobre o rio Sabor, recuperada pela população local em memória da extração mineira de volfrâmio e estanho, que perdurou até 1986.
Aproxima-se Carção, terra de comerciantes, onde uma boa parte da população descende de judeus que por ali se refugiaram no final do século XV. A atestar a importância do legado judaico, o brasão da freguesia inclui uma “mezuzá” e uma “menorá” (candelabro de sete braços, um dos mais antigos símbolos judaicos).
À direita, a curta distância, foi identificado um castro, um entre muitos que cobrem esta região.
Passada a aldeia, inicia-se a descida ao rio Maçãs, com Vimioso à vista, a nascente. A estrada desenvolve um extenso gancho a norte, a ganhar ponto contornando o Alto do Rebolo, onde o Maçãs se enrosca a duzentos e cinquenta metros de profundidade. Transposto o Maçãs numa alta ponte construída no Estado Novo há cinquenta anos, inicia-se a subida da margem esquerda tendo como cenário o magnífico vale encaixado do rio, que corre para sul. Mantêm-se o fraguedo e a rusticidade do coberto arbóreo, que varia e se densifica com a chegada ao coroamento da vertente, onde assenta Vimioso. No caminho fica para trás a cultura de oliveiras em surribas individuais sobre as encostas escarpadas. O solo, sempre xistento, apresenta-se agora mais amarelado. Sobreiros e azinheiras, oliveiras e freixos são espontâneos, entre o mato rasteiro. Nos pontos mais elevados, pequenas manchas de pinhal e uma contínua expansão de castanheiro, em pequenas plantações ainda de tenra idade.
Antes de chegar a Vimioso desvie uma curta distância pela estrada de Mogadouro para subir à ermida da Senhora das Pereiras, ereta no dorso do Maçãs-Angueira. Vale pela magnífica panorâmica, com amplas vistas sobre o quadrante austral.
Antes de prosseguir a Rota vale a pena referir que a 13 ou 14 quilómetros ficam as célebres Minas de Santo Adrião, uma jazida de alabastro e calcário sacaroide já explorada pelos romanos e que conserva ainda quatro grutas com interessantes concreções estalactíticas.
A Rota aponta agora a Avelanoso. Saindo de Vimioso encontra-se, do lado esquerdo da estrada, o Parque de Campismo Municipal e um parque de merendas instalado num montado de sobreiros. O planalto estende-se coberto de mato e penedia, com algumas intercalações de searas quando o terreno é favorável.
Junto à primeira indicação que se encontra à direita, para S. Joanico, está localizado o Parque Ibérico de Aventura e a Porta da Rota da Terra Fria, de Vimioso.
S. Joanico é uma povoação que se desenvolve sobre o Angueira, com uma curiosa ponte românica de cinco lumes. A segunda indicação à direita é para Serapicos, aldeia sobranceira a um lameiro alimentado pelo mesmo rio. Para a esquerda fica Vale de Frades, onde poderá visitar uma forja tradicional que em mirandês se designa por “frauga”, onde se afiam as “relhas”, ou pontas de arado.
Todo este percurso se faz pelo vale do Angueira, incluído também na Rede Natura 2000 e particularmente distinguido por constituir o último reduto de uma espécie rara de crustáceos, o lagostim de patas brancas, muito apreciado na gastronomia mas hoje dado como quase extinto.
Em frente, embora com pouca expressão na paisagem, elevam-se as serras de Rompe e Barca de Mourigo, pequenas elevações que quebram a monotonia do planalto e consubstanciam a demarcação fronteiriça no interflúvio Maçãs-Angueira.
Continuando a estrada, pela planura já ligeiramente modelada, chama mais uma vez a atenção a festiva combinação pictórica do intenso vermelho dos terrenos revoltos e do tom crestado das searas. O mato rasteiro, alguns sobreiros e pequenos pinhais dominam, até que se estende de novo a achada que se vai utilizando para criar novos soutos. E assim chegamos a Avelanoso, junto à ribeira de Santa Ana.’

“Revista muito informativa e simples de ler. ”

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