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De Salto Alto 

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50 Sombras de Grey, o relatório.

Foi com curiosidade relativamente ao fenómeno de sucesso, quer do livro quer do filme, que pela 1ª vez em tantos anos de amizade, fomos juntas ao cinema ver o tão popularizado “ As 50 sombras de Grey”. Ambas tínhamos lido o livro e estávamos desejosas por perceber a habilidade dos responsáveis ao transportar para o grande ecrã a história de amor (ou não…!) de Christian Grey e Anastasia Steel.

O que realmente nos empolgou não foram as “valentes” chicotadas que Christian infligiu na ingénua Ana mas sim o romance improvável entre estas duas personagens e o respectivo enredo.

Ora vamos lá então dissecar o tema.

1. O segredo do sucesso: a maior parte das mulheres acredita que pode ser uma Anastasia Steel
Passamos a explicar.

O que é que nos atrai na personagem de Mr. Grey? Qual o motivo de tanto encantamento? Ficamos com a perceção que, para a ter na sua vida em nome do que sente, ele vai cedendo e alterando alguns dos seus comportamentos. As investidas surpreendentes para estar a seu lado, marcando a sua presença, com atitudes de carinho, cedência, tolerância e persistência, deixam-nos extasiadas!

E acreditamos que isto se deve a quem? A ela e ao seu poder de “enfeitiçar” o homem que ama.

Nós mulheres acreditamos que possuímos esse poder mágico dentro de nós a que vulgarmente chamamos de amor (será que é?). Julgamos que por amar somos capazes de transformar. E que se ficarmos, por amor, o outro muda. Se aguentarmos tudo (inclusive umas açoitadas!) ele perceberá que nós somos aquilo que ele quer. Este é o nosso engano.

Isto não é o poder do amor. É cegueira.

Ora façamos o seguinte exercício. Troquem a seguinte frase “Ele quer que eu assine um contrato para que eu seja a sua submissa” por:

“Ele bate-me.”; “Ele droga-se.”; “Ele é alcoólico.”; “Ele é casado.”; “Ele é viciado em jogo.”; “Ele tem uma amante.”; e até mesmo “Ele não me ama.”.

Tendemos a negar a realidade independentemente das evidências gritantes. E quando isto acontece e nós acreditamos amar, estupidamente assumimos o papel de jovens virgens e ingénuas e acreditamos que iremos mudar estas circunstâncias. Isto acontece sim…na ficção!

Sim, o sentimento AMOR é realmente mágico mas não tem a capacidade de mudar o “objecto” amado. Apenas consegue mudar o “sujeito” que o sente.

2. Conteúdos: uma história de um amor manipulável ou de um manipulador amoroso?

Na nossa opinião, comparativamente ao livro, a vertente da manipulação foi pouco explorada no filme e está bem mais patente no livro. E mesmo assim, achamos que não retrata a realidade de um relacionamento manipulador.

Daquilo que vimos no filme, houve uma espécie de coacção mútua….uma troca constante de papéis…uma linha muito ténue de separação onde rapidamente um trocava para o papel do outro, transformando assim uma história possivelmente estimulante num romance de matiné.

Na manipulação existem papéis muito bem definidos. Existe o “agarrado” (o toxicodependente) e o dealer que dá a dose. Dose de falso amor, de segurança ilusória, de carinho mal-intencionado, de promessas fictícias, o que seja… O agarrado encontra-se à mercê do seu dealer e este a partir do momento em que tem esta consciência, domina a relação. É uma espécie de “jogo” mental, sujo, desleal e muitas vezes consentido, onde uma parte controla claramente a outra.

O que acontece é que a pessoa que tem mais necessidade assumirá o papel de toxicodependente, vivendo constantemente com receio de perder a sua dose diária. “E se o (a) perder? E se ele (a) me deixar? O que farei à minha vida?” Vivendo no temor, este torna-se possessivo, ciumento e cobrador.

Quanto ao fornecedor, este controla, domina e manipula a parte carenciada. Por algum motivo que desconhecemos, é isso que lhe dá prazer! E vai fornecendo as doses na quantidade que quer, se quiser e quando lhe apetecer…! Interessante é que este último, aparentemente o mais forte, a um nível mais profundo está igualmente dependente. Decerta forma, o manipulador/fornecedor também tem sede da sensação que obtém ao entregar a dose. É caso para dizer…quem é realmente o manipulador e o manipulado?

Na nossa opinião, ou há realmente amor onde ambas as partes se respeitam enquanto seres individuais e como casal ou então há outra coisa qualquer. Não lhe chamem é de AMOR, por favor!

Aquilo que muitas vezes chamamos de amor é na realidade MEDO.

Carla Dinis & Marisa Ribeiro

Artigo para ler na íntegra na edição impressa.

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