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Demónios por Sefarad – Um romance de terra e fogo, poder e mar 

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A Revista Raízes, a propósito do Congresso Sefardita que se realizou em Bragança nos dias 15, 16 e 17 de junho, foi ao encontro do autor flaviense (mas nascido em Lebução) Ernesto Salgado Areias com o intuito de saber mais sobre o lançamento, em dezembro de 2016, de Demónios por Sefarad – Um romance de terra e fogo, poder e mar, da Editora Mosaico de Palavras.

Lídia Machado dos Santos (LMS): Estamos a falar de um romance histórico que, à primeira vista, poderá ser tido como minimalista, mas cuja narrativa se cruza de forma habilidosa e pertinente com uma panóplia significativa de factos históricos. Pergunto-lhe qual a motivação para mais de 10 mil quilómetros percorridos, extensa bibliografia consultada, desgaste físico, eventualmente até um plano de viagem, tendo em conta que poderia cair no erro de incorrer por caminhos que os estudiosos desta temática já desvendaram?

Ernesto Salgado Areias (ESA):
Em primeiro lugar escreve-se por paixão. As temáticas vão surgindo ao sabor das nossas inquietações. Sendo eu de Lebução, onde existiu uma comunidade judaica muito significativa, sempre tive interesse em fazer uma abordagem mais profunda desta temática. Sendo escritor e não historiador, optei pela abordagem através do romance histórico que assume particular relevância na criação de imaginários do tempo em que a narrativa decorre. Encaixei as personagens que vão interagindo ao longo da obra, numa multiplicidade de cenários, que se estendem de Granada a Sevilha, passando por Lisboa, Bragança e Chaves.

LMS: Porquê Sevilha se a Diáspora é atemporal? Por que não Madrid ou outro lugar do mundo?
ESA: Eu datei o livro. A narrativa começa em 1477 e termina em 1506. Foi em 1 de novembro de 1478 que se verificou a instituição da Inquisição em Sevilha, sendo essa a principal razão que me levou a situar a narrativa nessa cidade. Acresce que Sevilha é uma cidade cheia de simbolismo, com dois mitos, a Cármen de Sevilha e D. Juan. Vale isto dizer que Sevilha é para mim uma cidade mágica, constituindo um cenário que nos envolve para criar uma obra de ficção.
Depois, começaram a surgir as dificuldades. A primeira diz respeito ao estudo da fase inicial da Inquisição, a parte mais nebulosa no que toca à pesquisa. Os tribunais do Santo Oficio são tribunais mistos que assentam no Ius Imperi da Coroa e de Roma onde preponderam os Dominicanos, que apagaram uma boa parte da História.
Vi-me obrigado a percorrer toda a cidade histórica, com particular destaque para o Barrio Judio de Santa Cruz. Senti dificuldades em encontrar o convento de San Paulo que desapareceu no século XIX, ali se situando atualmente a igreja de Santa María Magdalena. Com o seu desaparecimento, os Sevilhanos viram apagada esta fase da sua História porque é aí o centro nevrálgico da Inquisição – o que representou para mim uma grande dificuldade porque tive de ficcionar quase tudo em termos de espaço. Não vi, até hoje, uma única imagem do convento, o mesmo sucedendo com os Quemaderos, lugar onde foram queimadas centenas de judeus. Ninguém me sabia dizer! Não está, vergonhosamente, assinalado este lugar que é uma espécie de holocausto de Sevilha. Vim a saber que teriam sido no Prado de San Sebastian.

LMS: Não conseguiu chegar à fala com nenhum historiador?
ESA: Consegui! Um dia fui à biblioteca da Universidade de Sevilha, porque me faltavam informações, nomeadamente, sobre o convento de San Paulo e eu não queria ficcionar tudo, e a bibliotecária disse-me que o único historiador capaz de me dar informações estava sentado naquela sala. Ele ouviu a conversa e veio ter comigo, dizendo-me que apenas há dois livros que fazem uma ligeira alusão ao convento de San Paulo. Consultei esses livros e recolhi algumas pistas, não muitas, porque tudo isto foi apagado da História. Noutro momento, e depois de já ter passado por vários locais, tive um encontro muito feliz na Catedral de Sevilha com um professor Catedrático de História de Arte em Madrid, já reformado. Juntos, percorremos quase todo o Barrio Judio de Santa Cruz, trocando informações importantes.
Fui também a Gelves, lugar muito referido na obra, onde encontrei na Igreja um Escudo no teto que é uma fusão entre os símbolos da Casa de Bragança e de Colombo. O Diretor da Biblioteca, Siro Melguizo, recebeu-nos muito bem, pois, tinha acabado de fazer o doutoramento na Universidade do Porto. Perguntei-lhe se haveria algum traço de união entre Gelves e Chaves. Respondeu-me que o 2º Conde de Gelves era filho do Duque de Bragança.

LMS: Mas é possível conhecer a árvore genealógica desse senhor?
ESA: Ah, sim! Não esqueçamos que a História Medieval e Moderna entre os dois reinos é uma História comum com múltiplos laços familiares.

LMS: Voltando um pouco atrás na nossa conversa, disse que todo este assunto lhe é caro. Porquê?
ESA: Houve na minha família um homem de nome Cândido da Cunha Sotto Mayor, primo da minha avó Teresa da Cunha, que foi o fundador do Banco Pinto Sotto Mayor, e que eu não tenho dúvidas de que era judeu. Além disso, já se terá descoberto que os judeus de Lebução teriam uma característica: pele morena meio avermelhada. Originariamente, terão vindo do centro da Europa. Estou a tentar aprofundar essa particularidade.
Na base do meu livro está a criação do Centro de Estudos Judaicos do Alto Tâmega que tem em vista estudar as comunidades judaicas de Chaves, Lebução, Santa Valha, Carrazedo e Monforte de Rio Livre. O estudo está já em curso e este livro é um contributo. É um romance, muito ensaístico.

LMS: O que mais o fascina na Diáspora judaica?
ESA: Os judeus foram sempre escorraçados. Apesar disso, continuam a existir como um povo com vários prémios Nobel. O que me parece que resulta deste estudo é que a falta de proselitismo dos judeus sempre os prejudicou ao longo da História. Ou seja, enquanto a Igreja Católica se preocupou com a Evangelização, os judeus foram sempre exclusivistas, empurrando a Comunidade para uma vivência à parte. Os judeus tinham uma prática ancestral de lidar com o dinheiro. Tive a preocupação de, sem pretensiosismo, trazer à luz do dia alguns silêncios da História. Dou-lhe um exemplo: Isaac Abravanel, para mim, o maior Humanista do século XV Português, não estudado na nossa História. A primeira vez que soube da sua existência foi através do Abade de Baçal, figura impar a quem muito devemos.

LMS: Fale-nos do casamento entre Isabel Sacramento e Levy-ben-Amzalak
ESA: Trata-se de duas personagens ficcionadas com uma mentalidade renascentista que se apaixonaram colocando o amor acima da religião. Creio que este casamento permitiu a expressão de ódios entre comunidades diferentes, facilitou contactos, acesso a segredos enriquecendo a narrativa. Uma das coisas generosas que o livro tem é este casamento entre a personagem católica Isabel e o judeu, Levy.

LMS: Mas não era uma católica qualquer… e é uma das questões que eu lhe iria colocar porque estamos a falar da criação de personagens muito fortes. Apesar de todas as aberturas que o mundo vai sofrendo, estamos ainda no século XV e a lidar com mentalidades fechadas…
ESA: Estamos nos finais do século XV, mas o pensamento era tão elaborado como é hoje. São duas personagens superiores porque estavam à frente na sua época. São uma espécie de anúncio da relevância do Renascimento.

LMS: Sim, mas sabemos que nem todas as comunidades ou sectores tinham um pensamento aberto…
ESA: Ah, em Sevilha tinham…deixe-me fazer um apontamento: antes da Inquisição, muçulmanos, católicos e judeus coabitavam de forma serena, fazendo negócios entre si. Mas, volta meia volta, lá vinha um pogrom que dizimava os judeus.

Por Lídia Machado dos Santos

Entrevista para ler na íntegra na edição impressa.

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