Entrevista a Dulce Pontes

“Em Trás-os-Montes há uma sensação de alívio enorme cada vez que aqui regressamos, o cheiro da terra é diferente, o corpo e a alma descansam. É um poema, uma tela que parece infinita, os mares de bruma entre as montanhas, a raposa que passa furtiva mesmo aqui defronte, o rouxinol nocturno que cantou, cantou, cantou sem parar durante várias madrugadas (acho que estava difícil encontrar namorada!). Inspira-me ao ponto de conseguir passar de uma tarefa doméstica para a composição de um tema num ápice: ok jantar já está pronto, bom apetite, volto já!”

 

 “Isto até tem corrido bem!”

É assim que a cantora Dulce Pontes faz um balanço de quase trinta anos de música. Peregrinação é o mais recente trabalho de Dulce Pontes que escolhe Trás-os-Montes para viver há já seis anos. Diz que esta é a terra “onde a alma e o corpo descansam”. A Raízes falou com a cantora, instrumentista, compositora, arranjadora, produtora e mãe do José e da Maria. Nesta vida agitada de artista não sentiu que precisava de morar nos grandes centros e numas férias em Bragança decidiu mudar-se. Aqui encontrou paz e inspiração que tão bem descreve nesta entrevista.

Dulce, responde a esta entrevista a algumas milhas de Portugal, entre a agitação de voos e concertos, no regresso é em sua casa em Trás-os-Montes que descansa dessa agitação. O que encontrou nesta região?

Dulce Pontes (DP) – Horizonte, silêncio, natureza em estado puro, amor pela terra, tradições ancestrais, amizade, entreajuda, força de carácter e uma gastronomia que me “arredondou” com muito gosto.

Nasceu a 8 de Abril de 1969 no Montijo, viver a mais de quinhentos quilómetros da sua terra é compensador?

DP- Se pudesse fazer com que a minha família, em especial os meus Pais, viessem viver para cá, diria de caras que sim, é compensador. Esse é o meu calcanhar de Aquiles, sinto-me sempre metade. Tento compensar com idas regulares a casa dos meus Pais, mas não é a mesma coisa.

 

 “Viver aqui e com a possibilidade de me deslocar sempre que necessário é ter o melhor de dois mundos. Há uma sensação de alívio enorme de cada vez que regressamos, o cheiro da terra é diferente, o corpo e a alma descansam”

 

 

Há quanto tempo que decidiu viver para Trás-os-Montes? Foi muito influenciada pelos seus filhos ao que sabemos.

DP – Há cerca de 6 anos após um período de férias. O meu marido é de uma aldeia aqui perto. Sentimo-nos bem, os meninos adoraram. A decisão foi tomada de um dia para o outro.

Como descreveria a vida em Bragança? Sente alguma limitação por viver no interior?

DP – Nenhuma, muito antes pelo contrário. Viver aqui e com a possibilidade de me deslocar sempre que necessário é ter o melhor de dois mundos, sendo que Bragança me faz muita falta por tudo quanto já descrevi na primeira questão. Há uma sensação de alívio enorme de cada vez aqui regressamos, o cheiro da terra é diferente, o corpo e a alma descansam.

Os seu filhos gostam de viver na aldeia de Samil? Que idade têm agora o José Gabriel e a Maria José?

DP- O José tem agora 15 anos e a Maria 8 e gostam de aqui estar. Há sempre uma enorme manifestação de felicidade, mesmo quando chegamos de férias que normalmente são passadas perto do mar.

 

“Sou uma fã dos Transmontanos, também dos Alentejanos, têm muitas coisas em comum. Aprecio a frontalidade, a forma honesta de ser, a simplicidade dos pequenos-grandes gestos”

 

Algum deles partilha os seus gostos pela música ou pela dança contemporânea?

DP- O José é um caso sério, grande músico com muito caminho para andar. A Maria tem muitos talentos que, a seu tempo, tomarão o seu rumo, segundo o que for de sua vontade.

Sente que de alguma forma aqui estão mais seguros do que por exemplo numa cidade mais agitada como o Porto ou Lisboa?

DP- E mais saudáveis sem dúvida nenhuma.

 

“Trás-os-Montes é um poema, uma tela que parece infinita, os mares de bruma entre as montanhas, a raposa que passa furtiva mesmo aqui defronte, o rouxinol nocturno que cantou, cantou, cantou sem parar durante várias madrugadas (acho que estava difícil encontrar namorada!)”

 

O que acha das gentes desta terra?

DP- Sou uma fã dos Transmontanos, também dos Alentejanos, têm muitas coisas em comum. Aprecio a frontalidade, a forma honesta de ser, a simplicidade dos pequenos-grandes gestos.

Trás-os-Montes inspira-a?

DP- É um poema, uma tela que parece infinita, os mares de bruma entre as montanhas, a raposa que passa furtiva mesmo aqui defronte, o rouxinol nocturno que cantou, cantou, cantou sem parar durante várias madrugadas (acho que estava difícil encontrar namorada!). Inspira-me ao ponto de conseguir passar de uma tarefa doméstica para a composição de um tema num ápice: ok jantar já está pronto, bom apetite, volto já!

Sendo esta um terra tradições é algo lhe diz muito, foi o seu pai que lhe transmitiu esta paixão?

DP- O meu Pai nasceu em Arraiolos: é o lugar do imaginário da minha infância, talvez mais ainda do que o Montijo. As tradições sempre me fascinaram desde pequena, mesmo as que não entendia na altura. Há uma mística muito simples e intensa, com uma forte componente de ligação aos ciclos da natureza que me apaixona.

 

“A primeira paixão foi a música clássica, de forma que ainda completei o 4º ano de piano como aluna externa no Conservatório de Lisboa”

 

Aos que pensam que não há nada em Trás-os-Montes e que por aqui pouco ou nada se passa, o que lhe diria?

DP- Venham até cá para ver como se faz.

Numa altura em que tanto se fala da Madonna vir morar para Lisboa, acha que se ela vem a Trás-os-Montes de férias também fica por cá?

DP- Pois…podia dar-me uma ajudinha a plantar umas couves, nem precisava de ginásio! A Mandona era capaz de ficar gira na horta, assim vestidinha a rigor. Mas é aconselhável que fique em Lisboa.

 

“Relembro que quando vi o Nureyev pela primeira vez na televisão que ainda era a preto e branco, fiquei obcecada. Então punha uns collants e era uma saltaria desatada”

 

Foi muito cedo que nasceu o gosto pela música?

DP- Começou com o piano, aquelas notas todas pretas e brancas, uma orquestra nas mãos. Passava horas a ouvir os discos de vinil lá em casa: tive permissão para os pôr a tocar quando tinha 7 anos. Haviam várias colectâneas de vários tipos de música. A primeira paixão foi a música clássica, de forma que ainda completei o 4º ano de piano como aluna externa no Conservatório de Lisboa. A minha professora de piano era a Lígia Serra, uma querida amiga que não vejo há muitos anos.

Para além da música, também gostava de dança contemporânea?

DP- Relembro que quando vi o Nureyev pela primeira vez na televisão que ainda era a preto e branco, fiquei obcecada. Então punha uns collants e era uma saltaria desatada. Como a sala era pequena e tinha de afastar a mesa de centro, fui lascando os pés da mesa que tinham a forma de uns peixes que foram ficando sem olhos e com partes das escamas a faltar. Depois, também com 7 anos, comecei a frequentar a escola de dança Anabela Gameiro. A Anabela ensinou-me tudo o que diz respeito ao espírito de sacrificio inerente à busca de se dar o melhor de si mesmo. Tivemos uma relação quase de mãe/filha e mais tarde irmãs. Infelizmente partiu precocemente, fez o seu caminho, é um mistério esta coisa de se morrer. A dança contemporânea veio mais tarde, já em Lisboa.

 

“Era a voz de Amália que me transmitia alguma coisa tão profunda que eu mais tarde viria a descobrir na totalidade”

 

Começou a ouvir fado muito cedo, o que ouvia?

DP- Primeiro o meu Tio Carlos Pontes, figura carismática e grande fadistão, uma alma livre e boémia por natureza. Depois o Fernando Maurício com quem tive o imenso prazer de “crescer” a ouvir e a privar. Depois claro, Amália Rodrigues, que me fez
sentir aquela vontade de cantar fado. O disco “Povo que lavas no rio” em vinil, com uma capa a preto e branco, quando apareceu lá em casa e o ouvi pela primeira vez, sem saber porquê, fez-me chorar profundamente. Por vezes penso: que entendimento tinha eu com 7 anos de idade sobre aquele poema? Era a voz de Amália que me transmitia alguma coisa tão profunda que eu mais tarde viria a descobrir na totalidade.

Foi no Teatro Maria de Matos que se estreou na comédia musical “Enfim Sós”, recorda-se desse espectáculo?

DP- Claro que sim, os inícios são sempre momentos muito especiais, com um brilho próprio. Tive 8 dias para aprender a Peça toda, 8 músicas e várias coreografias. No dia da estreia, por fim, acreditei em mim quando vi as pessoas em pé no final.

Tive o enorme privilégio de poder aprender com Henrique Viana, Eugénio Salvador, Virgílio Castelo, Luísa Barbosa, Fernando Ferrão. Parecia que estava a sonhar.

Com quase trinta anos de carreira, qual é o balanço que faz?

DP- Isto até tem corrido bem!

A “Canção do Mar” já foi repercutida por dezenas de outros artistas, é das que mais projecção internacional teve. Banda sonora de filmes, séries.. Ainda lhe é muito pedida e espectáculos?

DP- Claro, é obrigatória! E amo-a, não me canso dela nunca.

Consegue escolher uma canção. Como a sua favorita ou tem cada uma para seu momento?

DP- Por isso os alinhamentos dos concertos estão sempre a mudar. Não estamos iguais todos os dias. Mas vá, se tivesse de escolher só uma mesmo, seria a Canção do Mar.

Já lhe chamaram a sucessora e herdeira de Amália Rodrigues, como se sente quando ouve isso?

DP- É um elogio mas nunca o aceitei. Cheguei a arrepender-me de ter gravado fados do repertório de Amália quando ela ainda era viva. (bom, ela continua viva sempre). Como tempo, creio eu, o público já conhece bem a Dulce Pontes.

 

“Pena é que neste momento o público em Portugal precise tanto de ouvir os ecos do marketing e da imprensa ou televisão para seguir o caminho de um determinado artista. Torna-se difícil para uma artista independente como eu, chegar ao público em Portugal”

 

Guarda com carinho um espectáculo em Bragança nas Festas da Cidade. É sempre especial actuar em Portugal?

DP- Claro, foi o meu primeiro público e é o meu País. Pena é que neste momento o público em Portugal precise tanto de ouvir os ecos do marketing e da imprensa ou televisão para seguir o caminho de um determinado artista. Como esses meios são tendenciosos de acordo com determinadas Editoras, playlists de rádios, etc, etc, etc, torna-se difícil para uma artista independente como eu, chegar ao público em Portugal. Daí o facto do meu caminho ser feito quase totalmente no estrangeiro.

O seu mais recente albúm intitula-se “Peregrinação”. Escolheu este nome porque se sente uma peregrina na vida, há uma busca constante de algo na alma de um artista?

DP- Cada um de nós o é, de certa forma. A vida em si é uma peregrinação e tanto!

Ao longo da sua carreira colaborou com vários artistas internacionais, como Cesária ÉvoraCaetano Veloso, Andrea Bocelli, Marisa Monte, o Maestro Ennio Morricone… com quais ainda gostava de dividir o palco ou até gravar um tema?

DP– Continuo a participar nos concertos do Maestro Ennio Morricone e com muito gosto! Ben Harper sem dúvida nenhuma.

Algum espectáculo em breve no nosso país?

DP- Este ano Portugal terminou no Porto no passado dia 11 de Outubro. Acabo de chegar de Lodz, Praga e Budapeste. Em Novembro sigo rumo a Atenas, depois Santiago do Chile e Buenos Aires. Termino no dia 2 de Dezembro em Milão depois de Bolonha. Depois, tempo para estar a viver tranquilamente o Natal com a família.

Se tivéssemos a possibilidade de gravar esta entrevista pessoalmente, qual o local que elegeria para o fazer?

DP- Íamos ao Racha, tomávamos um cafézinho e eu punha a conversa em dia com a Zulmira, telefonava à Professora Regina e ela vinha lá ter connosco!

 

Por Joana Martins Gonçalves

A Raízes – Trás-os-Montes e Alto Douro em Revista é um projecto editorial generalista, de âmbito regional, cuja publicação periódica é mensal.

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