Jorge Sales Golias

NNatural de Mirandela, foi um escritor, historiador, geógrafo e político de relevo nacional, tendo vivido a maior parte da sua vida em Lisboa, onde deixou duas grandes marcas: a fundação da Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1876, da qual foi secretário perpétuo e da CARRIS-Companhia de Caminhos de Ferro de Lisboa. A História apresenta-o como polígrafo, que significa autor que se dedica a escrever sobre os mais variados assuntos. Representou Portugal na Conferência de Berlim, em 1844, onde defendeu os nossos interesses coloniais da ganância de outros países europeus. Aquando do episódio do Mapa Cor-de-Rosa, LC esteve bem acompanhado pelos intelectuais do seu tempo, Eça de Queiroz, Antero de Quental, Teóphilo Braga, Columbano B. Pinheiro, Rafael Bordalo Pinheiro, Latino Coelho, Fialho de Almeida, Raúl Brandão, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro, Pinheiro Chagas, enfim, toda uma geração de ouro da História da Literatura e das Artes de Portugal. O que movia esta geração contestatária era a procura de uma identidade nacional fundada em valores históricos que deviam constituir as bases positivas da nacionalidade. Tudo isto num ambiente político de fim de regime.
A sua dedicação à Geografia, registada na sua obra mais emblemática – Questões Coloniais – foi bem aproveitada por Roger Teixeira Lopes para lançar em Mirandela as famosas e importantes Jornadas da Geografia, uma das quais teve a presença do belga, Dr. Antoine Bailly, espécie de prémio nobel da Geografia.
Este ilustre mirandelense tem estátua na rotunda mais importante da cidade, na entrada para a ponte nova (Engº Machado Vaz), estátua que quando a vejo me pergunto porque raio é que há a tendência de esculpir o Homem na sua fase mais decrépita, com uma grande corcunda, quando se podia fixar uma memória de melhor figura física. Foi contemporâneo dos transmontanos Guerra Junqueiro e Trindade Coelho, mas não se relacionou especialmente com eles. Teve alguns atritos com Eça de Queirós, que lhe dedicou uma das suas “farpas” e coordenou com Teófilo Braga a comemoração do 3º centenário de Camões, em 1880.
Mas o que me move a trazer aqui hoje um pouco da história de vida de Luciano Cordeiro (LC) é o seu lado mais romântico, sobretudo a divulgação da história de amor de Sóror Mariana. Em “Sóror Mariana – a Freira Portuguesa”, LC tentou provar a existência histórica da freira de Beja, Mariana Alcoforado, a quem se atribuem as famosas “Lettres Portugaises” (Cartas Portuguesas) escritas a Noel Bouton, Conde de Chamilly, capitão de cavalos, que estava em Portugal com as tropas francesas que vieram em auxílio depois da Restauração. Cartas que foram editadas em França em 1669, que agitaram alguma Europa e que fazem parte do nosso imaginário romântico.
A obra de LC é um estudo aprofundado e extenso (335 págs.) sobre as famosas Cartas Portuguesas da freira de Beja, fidalga, nascida em 22 de Abril de 1640, ano da Restauração e que entrou na História por ter amado um oficial francês. Naquele tempo, este foi o escândalo do século, revelado em França pela publicação das cartas de amor da freira portuguesa.
Conta LC que, em Janeiro de 1669, era lançado em Paris um pequeno livro com a história de cinco cartas de “uma paixão profunda, alucinada, doida, de uma pobre freira estrangeira…a um gentil-homem de qualidade que serviu em Portugal, mas que não se sabia o nome”.
Após a Restauração, em 1640, continuaram as lutas com Castela e foi nessas campanhas que vieram ingleses e franceses em apoio de Portugal. O exército era, assim, tripartido, com forças destes três países. A infantaria tinha 13.000 portugueses, 1200 franceses e 1000 ingleses. A cavalaria tinha 4600 portugueses, 900 franceses e 300 ingleses.
Em 1663/64, atraído pela amizade com o general Schomberg, veio para Portugal o capitão de cavalaria Noel Bouton, conde de Chamilly. Foi integrado no Regimento de Cavalaria de Briquemault, em Estremoz. Esteve na derrota dos espanhóis em Castelo Rodrigo, na Batalha de Montes Claros e outros confrontos.
Estranhamente, LC, que situa o namoro entre os dois jovens entre 1655 e finais de 1667, sublinha o facto de os nossos cronistas não se referirem muito a este oficial, talvez para limpar da História o escândalo que surgiria anos depois.
Citemos um pouco a bela prosa de LC: “…D’alli veriam as pobres raparigas enclausuradas manobrar os terços com os seus uniformes variados e scintillantes; – escarlates uns, verdes outros, alguns cobertos de passamanes multicores, outros ostentando os brazões heráldicos dos generaes, – e caracolando em volta, e exercitando-se nas cargas impetuosas, e desnovelando-se com longas serpes reluzentes, as companhias de cavallos, com os seus belos officiaes, moços quási todos, mais ou menos fidalgos todos, cujos olhares atrevidos e cúpidos, iriam por vezes alvoroçar estranhamente, atravéz das rejas do balcão (miradouro ou varandim) o bando das pombas do Senhor.

“Revista muito informativa e simples de ler. ”

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Este turbilhão de força, de vida, de audácia, esta onda de paixões fortes, vibrantes, encandescentes, a guerra em toda a sua belleza e sem nenhum dos seus horrores, o mundo, a sociedade, o homem em toda a sua grandeza: – devia ser realmente um extraordinário e allucinador expectáculo para as pobres creaturas cuja mocidade confrangia e estiolava monotonamente na fria e solitária contemplação das coisas inatingíveis e na contenção permanente, desnatural, tyrannica, de toda a sentimentalidade objectiva.
Marianna Alcoforado tinha já 25 annnos. Era uma mulher moça, provavelmente formosa, na plena maturação do organismo, do temperamento, da intelligencia…;”
O Capitão francês tinha então 30 anos, mais 5 que Marianna, quando se entregaram aos seus amores conventuais.
E teriam sido as pressões da burguesia local e da família nobre de Alcoforado sobre o Rei para afastar a cavalaria francesa de Beja que o levou à sua partida para França.
Em 1666, Luíz XIV ratifica a promoção de Chamilly (que já era Marquês) a Mestre de Campo de um Regimento de Cavalaria a formar, mas com o mês em branco, para se lhe apor a data quando ele regressasse a França. Ou seja, o Rei, sabedor do escândalo, preparava já a retirada de um dos seus fiéis cavaleiros.
Assim, o oficial francês teria regressado a França em finais de 1667, tendo já participado numa campanha em Fevereiro de 1668.
Um ano depois, as cartas eram publicadas, mas não se tomou logo conhecimento delas em Portugal. Segundo Theóphilo Braga, foi no 3º quartel do séc XVIII que se soube que as cartas estavam em Portugal, mas proibidas pela Mesa Censória. No entanto, LC diz que devem ter sido introduzidas ainda no séc XVII.
O cuidado em esconder a veracidade das cartas foi tal que o cronista Frei Fernando da Soledad diz que o convento era rodeado de altos muros sem miradouros. Ora Marianna refere-se numa das cartas ao miradouro donde se vê Mértola e donde ela viu pela primeira vez o seu “capitão de cavallos”.
Luciano Cordeiro constatou no local a existência de miradouros, concluindo que o Frei foi iludido ou mentiu. Na verdade, não era Mértola que se via, mas as antigas Portas de Mértola, assim designadas por ficarem do lado de Mértola.
Theóphilo Braga (TB), citando Frei Jerónimo, contemporâneo de Marianna, falando das freiras deste convento e aludindo aos amores de Marianna, diz que “ella sentira mas não consentira”. “Da castidade só sentiu o que faz mais meritória esta virtude, mas sentindo nunca consentiu, pois ao mesmo tempo em que se via convidada ao apetite, na resistência encontrava allívio”. “Fazia muito por suprimir os incêndios com rigorosas penitências e assim castigava as rebeldias da carne própria”. Contrapõe LC dizendo que esta Marianna de que fala TB era outra, a sóror Marianna da Conceição, que entrou no convento aos 7 anos e lá morreu aos 120 anos, em 1736, portanto, contemporânea de Alcoforado.
LC fixa entre Dezembro de 1667 e Junho de 1668 o período das cartas de Marianna enviadas ao seu amado em já em França. Em 1667, já Coronel, casava e em 1703 era feito Marechal de França.
Morreu em 8 de Janeiro de 1715 com 79 anos de idade. Nessa altura Saint-Simon escreveu: “servira moço em Portugal e é a ele que foram escritas essas famosas cartas por uma religiosa que lá conhecera e que por ele enlouqueceu”.
Entretanto, em 1709, Marianna Alcoforado perde a eleição para Abadessa por 58 contra 48 votos, acabando por ser porteira do convento. Mas este cargo só era concedido às mais antigas, virtuosas e zelosas.
Morreu em 28 de Julho de 1723, com 83 anos, 8 anos depois do seu amado.
Estudaram este episódio romântico da História de Portugal, Teófilo Braga, Pinheiro Chagas, Camilo Castelo Branco, Filinto Elísio (que foi o primeiro tradutor das cartas em 1810), Alexandre Herculano, D. Francisco Manuel de Melo e Luciano Cordeiro.
Em França referiram-se-lhe Jean Jacques Rousseau e Saint-Simon. As cartas foram publicadas na França, Alemanha, Holanda e Bélgica. Luciano Cordeiro fez a quinta tradução das cartas, corrigindo-as, reordenando-as, datando-as e esclarecendo-as.
Ainda hoje se estuda este episódio de epistolografia, cuja beleza literária e carácter romântico permite classificá-la como um momento alto da literatura portuguesa do século XVII.
O livro de Luciano Cordeiro que é objecto desta crónica, termina com a publicação das Cartas Portuguesas. São cartas de amor, mas não são ridículas como dizia Fernando Pessoa. São cartas extremamente comoventes que me deixaram uma grande ternura pela freira alentejana.
E respeito, não apenas pela doçura da sua paixão, mas também pela sua grande coragem. Coragem de cometer um “pecado capital”, agravado pela sua circunstância, pela sua condição social e pelos costumes da época.
Luciano Cordeiro teve o mérito de perceber a dimensão desta história de amor. Estudou-a, investigou-a, documentou-se e produziu esta que é, talvez, a sua melhor obra literária.
Passagens de algumas cartas:
– Da primeira carta
“…Encontrarias talvez mais formusura, -e comtudo dizias-me outr’ora que eu era bonita, -mas não encontrarias, nunca, tanto amor…e tudo o mais é nada….
Não estou em condição de tirar vingança de ti, e acuso somente o rigor do meu destino… Não conseguirá separar os nossos corações: – o amor que pode mais do que elle, uniu-os para toda a vida”….
-Da segunda carta:
“O teu tenente acaba de dizer-me que uma tormenta te fizera arribar ao Algarve. Receio que tenhas soffrido muito no mar, e esta apprehensão tão vivamente me absorveu que não tenho pensado em todas as minhas penas. Imaginas acaso que o teu tenente se interesse, mais do que eu, no que te succede? Porque está elle melhor informado, e, em summa, porque não me tens escripto? Bem infeliz sou se, para o fazer, não tens tido occasião alguma desde que partiste, e, mais ainda, se, tendo-a, não me escreveste.
Consumiste-me com a porfia dos teus galanteios, abrazaste-me com os teus transportes, enfeitiçaste-me com as tuas finezas, renderam-me os teus juramentos, seduziu-me a minha inclinação violenta e as continuações destes princípios tão ledos e tão felizes não são mais do que lágrimas, cançados suspiros, uma funesta morte, sem que possa encontrar-lhes remédio!
As freiras mais austeras compadecem-se do meu estado. Move-as uma certa contemplação, uma certa piedade por mim. A todos commove o meu amor, só tu persistes n‘uma profunda indiferença… sem me escreveres senão cartas frias, cheias de repetições, metade do papel em branco, dando grosseiramente a conhecer que morres por terminal-as…
… que julgando destrahir-me me levou a passeiar na varanda d‘onde se vêem as portas de Mértola. Fui, e logo me assaltou uma lembrança cruel que me fez chorar todo o dia…Vi-te, d’alli, passar com ares que me enfeitiçaram, e estava n’aquelle miradouro, no dia fatal em que começei a sentir os primeiros effeitos da minha desventurada paixão” …
-Da terceira carta:
“Esperava que me escrevesses de todas as terras por onde passasses, e que longas cartas eu contava receber!…
Mata-me esta ideia. Morro de terror ao pensar que nunca sentirias verdadeiramente o íntimo enlevo dos nossos prazeres….
Choro por amor de ti as inexgotáveis delícias que perdeste…
Não sei o que sou, nem o que faço, nem o que desejo.
Dilaceram-me mil commoções contrárias…
Mas agradeço-te do fundo do coração as mortificações que me causas, e aborreço a tranquilidade em que vivia antes de conhecer-te.
-Da quarta carta:
“…Mas entregava-me toda, a ti, meu amor, e não me achava em condição de cuidar no que teria de envenenar o meu contentamento, quando gostava plenamente as mostras ardentes da tua paixão….
Não. Prefiro soffrer ainda mais do que esquecer-te.
E depende isto de mim?
Se nem posso reprehender-me de ter imaginado, um momento que fosse, não continuar a amar-te!…
Que ainda mais digno de dó és tu, do que eu, porque mais vale penar quanto soffro, do que gosar os lânguidos prazeres que hão-de dar-te as tuas amantes de França….
Prézo-me de te haver posto em estado de não teres, sem mim, senão prazeres imperfeitos, e sou mais feliz do que tu porque mais occupada ando d’este amor.
Regala-me que me seduzisses.
A tua ausência rigorosa, talvez eterna, não diminue em nada a violência do meu amor.
Quero que toda a gente o saiba; não faço delle mystério; preso-me de ter feito tudo o que fiz, por ti, contra toda a espécie de decoro. Em nada mais faço consistir a minha honra e a minha religião do que em amar-te perdidamente toda a vida…
Um official françês teve a caridade de me falar, esta manhã, de ti, por mais de tres horas. Disse-me que a paz em França estava feita. Sendo assim não poderias vir ver-me e levar-me para França?…
Algumas freiras que sabem o estado lastimoso em que me lançaste, fallam-me de ti muitas vezes.
Saio o menos possível do meu quarto onde tantas vezes vieste, e estou sempre a contemplar o teu retrato que me é mil vezes mais querido do que a vida.
-Da quinta carta:
“Escrevo-lhe pela ultima vez e espero fazer-lhe perceber na differença dos termos e na maneira d’esta carta, que logrou convencer-me, finalmente, de que não me amava já, e que assim, também, devo deixar de o amar.
Encarreguei de tudo D. Brites (freira confidente). Ella tomará as precauções necessárias para que eu fique certa de que o senhor recebeu o retrato e as pulseiras que me dera….
Abomino a sua franqueza.
Pedi-lhe, porventura, que me dissesse sinceramente a verdade?…
Procuro n’este momento desculpál-o e comprehendo bem que uma freira não é nada amável, de ordinário.
Parece-me comtudo que se os homens podessem ter mao na razão quando escolhem os amores, mais se inclinariam a ellas do que às outras mulheres.
Nada as distrahem mil coisas que no século absorvem e consomem os corações.
*
As traduções falam em quarto ou em cela, mas segundo LC seria uma casa dentro do perímetro do convento, segundo a tradição dos grandes senhores que as atribuiam, por herança, às filhas enclausuradas. E isso ajuda a perceber a privacidade com que Marianna recebia o seu capitão françês.
Cheguei ao fim desta bela história de amor lendo-a em voz alta, absorvido e emocionado, como se estivesse a ler para os meus leitores. O livro de LC, comprado num alfarrabista, partido em vários pedaços, ficou ainda mais desfeito do que quando o adquiri. Carinhosamente, e em homenagem à corajosa freirinha de Beja, mandei encaderná-lo e ofereci-o à Biblioteca Sarmento Pimentel, de Mirandela.
Escrevi aqui apenas uma pequenina parte das cartas, que são muito longas, intensas e muito bem escritas. Fiquei com a impressão de que, no convento do Real Mosteiro da Nossa Senhora da Conceição, em Beja, as freiras respeitaram de um modo geral a paixão de Marianna. A sua mãe, Leonor Mendes, “com maravilhoso instinto de mãe, vendo a filha à beira da loucura ou do suicídio, teria procurado operar nessa alma attribulada uma diversão salvadora, prendendo-a aos carinhos e cuidados d’aquella fragil e risonha existência”. Ou seja, a mãe entregou-lhe a filha mais nova, Peregrina Alcoforado, de três anos, para consolo da irmã!
Termino com uma frase recuperada por Luciano Cordeiro, cuja autoria se perde nos tempos: “Para bem escrever uma carta de amor é necessário começar sem saber o que se dirá, e não saber o que se disse, quando se acabou”.

A Raízes – Trás-os-Montes e Alto Douro em Revista é um projecto editorial generalista, de âmbito regional, cuja publicação periódica é mensal.

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