Lenda de Santa Comba dos Vales, uma guerra entre cristãos e mouros

A Serra dos Passos ou Serra da Santa Comba, situada no Alto Trás-os-Montes, que abrange dois concelhos, Valpaços e Mirandela, e também dois distritos, respectivamente Vila Real e Bragança, está rodeada de lendas e histórias encantadas que explicam o conflito e revolta que o domínio dos povos árabes teve na região.

Reza a lenda que dois irmãos pastores, Comba e Leonardo, pastoreavam os rebanhos na serra. A beleza de Comba a todos fascinava e o rei mouro também não resistiu a tanto encanto, pelo que, na qualidade de soberano e vencedor dos povos da região, nada lhe podia ser negado, e quis então possui-la. Depois de várias tentativas falhadas, experimentou a violência para conseguir pela força o que não conseguiu pelo jeito, mas Comba fugiu, e quando o Rei de Orelhão (que tinha uma orelha de burro e outra de cão) estava prestes a apanha-la, invoca os poderes divinos dizendo: “Abre-te fraga bendita, para em ti entrar a Comba cativa”. A fraga abriu-se e abrigou no seu seio aquela heroína da resistência cristã, contra o domínio da mourama.

O Rei de Orelhão achava que nada o poderia deter e avançou sobre a fraga, onde o cavalo, ao estacar, deixou as ferraduras gravadas na fraga. Cansado, e espumando de raiva, vingou-se matando Leonardo, o irmão de Comba, abriu-lhe a barriga, tirou-lhe as tripas e deitou-as para um poço. Consta-se que por esse motivo, apesar de se situar no cume de um monte, esse poço nunca seca, e a sua água é sempre fresquinha para matar a sede dos romeiros que ali vão prestar homenagem aos heróis da cristandade.

 

A maldição da Serra dos Passos

Outra forma de explicar a influência dos povos árabes na região é a história de amor entre uma cristã e um mouro que amaldiçoou a serra.

Um dos livros do transmontano Alexandre Parafita “A Mitologia dos Mouros” conta a história de amor entre os dois jovens.

Nos tempos em que guerreavam cristãos e mouros, estas terras eram governadas por um rei cristão que tinha uma filha. Um dia ela conheceu um jovem mouro e apaixonou-se, mas como sabiam que o seu amor nunca seria aceite entre os dois povos decidiram fugir e esconderem-se na farta vegetação da serra dos Passos. O rei quando soube perseguiu-os mas perdeu-lhes o rasto. Resolveu lançar fogo à serra para que morressem queimados. E por isso diz o povo que a serra está como está, sem vegetação, e onde só se vêem fraguedos, por causa da maldição que o rei cristão lançou aos dois fugitivos. Nunca mais ali nasceu nada que preste.

 

Historiadores e antropólogos dizem que todo o processo de evolução desta serra demorou 400 milhões de anos, foi formada durante uma fase de agitação da crosta terrestre chamada, o “Paleozóico / Silúrico”.

Do seu cume é possível observar várias serras nomeadamente Serra da Padrela, Serra de Bornes, Serra de Montesinho e Serra da Coroa, entre outras. Avista-se também grande parte  dos distritos de Vila Real e Bragança, e a região da Sanábria com as suas imponentes montanhas que ultrapassam os 2100 metros de altitude, já situada em Castela e Leão.

Ainda num dos pontos mais elevados desta serra encontra-se o Santuário de Santa Comba, situado no concelho de Valpaços, sendo feita todos os anos uma festa religiosa em honra da padroeira que dá o nome à serra no dia 8 de Agosto de cada ano, peregrinação esta que assenta na lenda de Santa Comba dos Vales.

 

Curiosidade:

A Serra de Santa Comba é também muito requisitada para a realização de provas de parapente, visto permitir descolagens em vários sentidos, tanto para Oeste desde o concelho de Valpaços, Freguesia dos Vales, bem como para Leste já no concelho de Mirandela a partir da Freguesia dos Passos e Lamas de Orelhão. São também realizadas diversas provas de escalada nas encostas da Serra de Santa Comba, especialmente no concelho de Mirandela, na freguesia dos Passos.

 

A Raízes – Trás-os-Montes e Alto Douro em Revista é um projecto editorial generalista, de âmbito regional, cuja publicação periódica é mensal.

LER MAIS

SIGA A REVISTA RAÍZES NAS REDES SOCIAIS