Lídia Machado

Ese as mulheres ficavam viúvas ou os maridos iam para a guerra, como passava a ser a vida em casa? – perguntei por me parecer que havia muitas mulheres nessas circunstâncias na aldeia.
Talvez muitas fossem viúvas por questões que só o tempo explica juntamente com as maleitas que o corpo produz com o passar do mesmo tempo, dos trabalhos, das agruras, das lágrimas e de tormentos que nos vêm ao pensamento e que, às vezes, nem conseguimos explicar. Ainda assim, a aldeia estava despovoada de homens e os que resistiam aos invernos miravam a luz do dia taciturnamente, como se lhe fizessem um favor. Como se sentissem já não pertencer àquele chão.
– A bidinha tinha de continuar. Já che chabe! Com o home em caja às bezes era mais fácil. Ele trataba dos animais e dos prédios, ia a chamar as gentes prás sementeiras e prás colheitas… Mas não ch’esquecha que muntos eram uns doidos por binho e batiam nas mulheres e nos filhos. Habia por aí umas cajas desgraçadas, que julga? – respondeu, atirando o olhar para o alto, ao mesmo tempo que a ponta do xaile caía com espalhafato em cima do seu ombro.
– Mas quando os homens cumpriam o seu dever…
– Ah, chim, chim. Quando eles eram homes às dreitas e Deus os lebaba ou iam prá guerra… olhe as mulheres e os filhos não deixabam a caja cair, não penche! Habia uma mulher cá n’aldeia…
Ainda sentada, inclinei o rosto para a frente num ato irrefletido de quem quer ouvir com nitidez todas as sílabas sibiladas por entre os espaços que os dentes haviam deixado já. Era a história de vida de uma vizinha. Ficara viúva quando ainda os quatro filhos cabiam “debaixo de um cesto” e não lhe restou mais nada que não fosse agarrar a vida e levá-la retorcida pelos caminhos do tempo.
Enquanto fora casada, e porque não era sítio para mulheres noutra condição, habituara-se a trabalhar na taberna da aldeia. Atendia os clientes, sem conversas. Vendia vinho e alheiras. Alugava os quartos da casa da taberna aos estudantes que lavava e passava como se fossem os seus próprios filhos. Mas, depois da noite em que velara o corpo do marido enroscada num cobertor de ovelha, não voltaria a pisar o chão pedregoso da taberna. Imprimiria o luto no corpo e apertaria com força o lenço na cabeça – sinal de que continuava a velar o marido, o seu “home”. Os cabelos longos e vistosos perderiam o brilho e a cor sem que ninguém notasse, mas manter-se-ia afastada da censura das vizinhas.
Ao longo dos anos, tudo valeria para criar os filhos – a horta, o pão, o gado… e as alheiras – as melhores das redondezas. Mesmo quando passavam oito dias embrulhadas em jornais e perdidas nas encomendas do comboio para Coimbra, o destinatário não abdicava delas!
– Nunca tinha pensado nessa questão da censura no caso de as viúvas tirarem o lenço…- disse em jeito de desabafo e admiração.
A Velha parecia continuar a sua caminhada pelas memórias da aldeia e não completou a minha falta de perspicácia para com as leis sociais instituídas no mundo rural.
– Habia outra, aí na caja grande – aquela lá n’antrada d’aldeia. Botaram-se a chamar a caja grande por ser por’í a mais rica cá entre nós. Bem, o qu’é cherto é qu’eles tinham uma rapariga que chó punha o pé na rua com a criada atrás dela. – estancou o quase monólogo e olhou-me para analisar o meu nível de pasmo que deveria ser grande porque colheu animo para prosseguir.
A menina da casa grande crescera no seio de uma família letrada e abastada. Apesar do conforto económico, aprendera a desempenhar, com exigência e retidão, todas as tarefas da casa grande porque um dia seria ela a mandar os criados, certamente. A mãe, professora primária, deslocava-se a cavalo para a escola da aldeia mais próxima, mas a menina da casa grande aprendia a fazer a barrela, a manusear o ferro a carvão, as compotas, o fumeiro…
A Velha continuava a sina da menina da casa grande e eu pensava que cada mulher encerrava em si uma história de vida diferente. Uma luta diferente. Ergui-me e despedi-me. A menina da casa grande esperaria até à próxima conversa.

“Revista muito informativa e simples de ler. ”

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