“Matar só Deus e os de Abaças”

Não há velho nem novo, que no concelho de Vila Real, e até mesmo fora dele, nunca tenha ouvido o ditado “Matar só Deus e os de Abaças”.

Apesar da maioria das pessoas desconhecer a origem de tal expressão, a verdade é que as gentes desta freguesia de Vila Real não conseguem livrar-se da fama.

Numa simples conversa de café se alguém dizia ser de Abaças, os comentários surgiam de imediato. Uns em tom de brincadeira, outros com um ar mais sério, acabavam sempre por referir o ditado, qualificando os abacenses como pessoas agressivas e violentas.

Se é verdade que com o passar do tempo, o relevo dado ao ditado tem vindo a esvanecer, também é verdade que ainda há quem olhe para os habitantes desta terra com um certo preconceito.

Esmeralda Cruz, habitante de Abaças, admite que não gostava quando falavam mal da sua terra. “Quando dizia que era de Abaças, as pessoas das outras terras falavam logo no ditado e eu não gostava nada”, revelou. “Mas agora já pouca gente se refere a isso”, acrescentou.

Apesar de não haver certezas sobre a origem do ditado, há várias teorias que têm tentado descodificá-lo.

Uma delas, e a mais conhecida e aceite pelos populares, está ligada à morte de Inês de Castro.

Recordando um pouco da História de Portugal, Inês de Castro era uma nobre galega, por quem o Infante D. Pedro I se apaixonou e de quem teve quatro filhos. Foi mandada matar por D. Afonso IV, pai de D. Pedro I.

  1. Pedro I de Portugal, herdeiro do trono português, casou com D. Constança Manuel, mas foi por uma das aias da sua esposa, Inês de Castro, que se apaixonou. Este romance foi mal aceite tanto pela corte como pelo povo, e D. Afonso IV, que também não aprovava esta relação, mandou exilar D. Inês.

Mas depois da morte de D. Constança, D. Pedro quis retomar o amor que tinha com Inês, tendo passado a viver juntos, o que foi um escândalo para a altura. D. Afonso IV não aguentou as pressões dos seus conselheiros e tomou medidas mais violentas, mandando executar Inês de Castro. O autor deste crime foi, entre outros, Pêro Coelho.

De recordar que D. Pedro I perseguiu os assassinos de D. Inês, que tinham fugido para o Reino de Castela. Pêro Coelho foi apanhado e executado em Santarém, e segundo reza a lenda, o Rei mandou arrancar-lhe o coração pelo peito, assistindo à execução enquanto se banqueteava.

Mas o que tem a ver a morte de Inês de Castro com Abaças?

Na altura da independência do condado Portucalense havia cinco famílias nobres. Uma delas ficou conhecida como a de Riba Douro, à qual está ligado o nome de Egas Moniz, Aio do Rei D. Afonso Henriques.

E é esta figura da história portuguesa, entre outros nobres, que está na origem da família Coelho, que se integrou em outros vínculos, um dos quais o Morgadio de Abaças. O nome de Pêro Coelho passou a estar associado a esta terra (Abaças) por aí residirem descendentes dos Coelho. Pensa-se então que o ditado tenha surgido pela morte de Inês de Castro protagonizada por este membro da família Coelho.

Há ainda quem associe o assassinato de D. Inês à destruição do Castro de Abaças, isto porque já não havia sinais nem de muralhas nem de fortificações no local, mesmo antes das plantações que aí vieram a ser feitas. Acredita-se que tal se deveu a ordens reais da altura, como represália para com a família dos responsáveis pela morte de Inês de Castro. Represálias que teriam acontecido não só em Abaças, como também em todas as localidades que estivessem relacionadas à família Coelho.

A casa brasonada de Abaças, conhecida como a casa dos Fidalgos está hoje na posse de pessoas que nada têm a ver com a família Coelho.

 

Há ainda quem associe o assassinato de D. Inês à destruição do Castro de Abaças

 

Um dos actuais proprietários, António Teixeira, conta que há outra lenda ligada a Pêro Coelho e a Abaças. “Diz-se que depois de ter sido perseguido pela morte de Castro, Pêro Coelho se refugiou aqui na Casa de Abaças, tendo escondido a sua espada debaixo de uma palmeira, que ainda hoje existe”, explicou.

Apesar da curiosidade da família em saber se de facto isto é verdade ou se trata apenas de uma lenda, ainda ninguém teve coragem de arrancar a árvore para confirmar.

E assim se fica a conhecer mais um mistério envolvendo a Casa de Abaças e que um dia, quem sabe, seja desvendado.

Versão da freguesia ao lado: “Matar só Deus e os de Abaças com licença dos de Guiães”

Mas há outra explicação para o surgimento do ditado, que tem a ver com os episódios sangrentos e de enorme violência que ocorreram aquando das lutas civis que se seguiram ao Miguelismo na primeira metade do séc. XIX. Nestes confrontos estiveram envolvidos os transmontanos, mas foram os populares de Abaças e Guiães, outra freguesia do concelho de Vila Real, que se envolveram com mais intensidade e agressividade.

Talvez seja por isso que os habitantes de Guiães proferem o ditado de uma outra forma: “Matar só Deus e os de Abaças com licença dos de Guiães”. Mas os abacenses não concordam com a versão dos vizinhos e mantém o ditado original.

Qual das teorias é a certa? Será que alguma delas está correcta? Ninguém sabe. O que há são apenas suposições tendo em conta factos históricos.

Não se sabe se no passado o ditado teve razões para existir ou não. O que se sabe é que nos dias de hoje não tem qualquer aplicação. Abaças é uma terra de pessoas humildes e honradas, e apesar dos arrufos que possam existir, tal como em qualquer outra localidade, não há nada que actualmente justifique este ditado.

A Raízes – Trás-os-Montes e Alto Douro em Revista é um projecto editorial generalista, de âmbito regional, cuja publicação periódica é mensal.

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