O homem que nomeou Trás-os-Montes “O Reino Maravilhoso”

 “Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo”, palavras do poeta transmontano: MIGUEL TORGA

Passaram 107 anos sobre o nascimento de Miguel Torga. Foi a 12 de Agosto de 1907 que nasceu em São Martinho de Anta (Vila Real). Nasceu Adolfo Rocha, filho de Francisco Correia Rocha e Maria da Conceição Barros, uma família humilde transmontana. Anos mais tarde, quando começou a escrever, escolheu o nome pelo qual ficou conhecido: Miguel Torga. Foi poeta, contador de histórias, trabalhou em fazendas de café no Brasil, serviu em casas apalaçadas, foi médico e escreveu romances, peças de teatro e ensaios. Um homem de mil ofícios, cem por cento transmontano.

 

Ser padre não passava pelos sonhos de Torga e um ano depois de estar no seminário comunicou a decisão ao seu pai.

 

Miguel Torga tinha apenas 10 anos, quando foi para a cidade do Porto servir de porteiro e moço de recados. Trabalhava numa casa apalaçada onde rigorosamente fardado de branco fazia de tudo um pouco: regava o jardim, limpava o pó, polia os metais da escadaria nobre e atendia campainhas. Mas a rebeldia do jovem falou mais alto e foi despedido um ano depois.

Foi no Seminário de Lamego que o escritor estudou Português, Geografia, História, Latim e ganhou alguma familiaridade com os textos bíblicos. Ser padre não passava pelos sonhos de Torga e um ano depois de estar no seminário comunicou a decisão ao seu pai.

Passou alguns anos no Brasil, onde viveu com o tio que era proprietário de uma plantação de café. Este apercebeu-se da inteligência do sobrinho e pagou-lhe os estudos de medicina na Universidade de Coimbra.

 

Percurso literário

“Ansiedade” foi o primeiro livro de poemas publicado pelo transmontano. Tinha pouco mais de vinte anos quando deu início à colaboração na revista Presença, folha de arte e crítica, com o poema Altitudes. Em 1936, separou-se do núcleo da revista de que eram fundadores José Régio e João Gaspar Simões, e criou, com Albano Nogueira, a Manifesto, Revista de Arte e Crítica: “Procurávamos um caminho de liberdade assumida onde nem o homem fosse traído, nem o artista negado”, defendiam, contra o “individualismo” dos presencistas. Nessa altura já começara a publicar: Ansiedade  (1928, ainda como Adolfo Rocha), Rampa  (1930), Tributo e Pão Ázimo (contos), ambos em 1931.

 

Um rebelde escritor que escreveu mais de 50 livros

Conta a história e muitos transmontanos que privaram com Miguel Torga que era um verdadeiro rebelde, um eterno inconformado diante dos abusos de poder e das injustiças. Pela sua vida fora estiveram sempre bem vincadas as suas raízes transmontanas. Também a sua experiência enquanto médico. Dividiu o seu tempo entre a medicina e a literatura. Depois da Revolução de Abril de 1974, Torga surge na política para apoiar a candidatura de Ramalho Eanes à presidência da República. No entanto, era avesso à agitação e à publicidade e manteve-se distante de movimentos políticos e literários.

Publicou mais de cinquenta livros ao longo de sessenta anos e foi várias vezes indicado para Prémio Nobel da Literatura. Casou com uma belga, Andrée Crabbé,  viera para Portugal fazer um curso de Verão mas o poeta transmontano já não a deixou regressar à sua terra natal. O casal teve uma filha, Clara Rocha. Viveram grande parte da sua vida na cidade de Coimbra, onde ainda hoje se pode visitar a casa de Torga.

Em 1993 publicou o seu último trabalho, dois anos depois o coração do poeta do Reino Maravilhoso deixou de bater. Hoje, em São Martinho de Anta ao lado da sua campa está uma torga plantada, em honra do poeta, que é nosso.

A Raízes – Trás-os-Montes e Alto Douro em Revista é um projecto editorial generalista, de âmbito regional, cuja publicação periódica é mensal.

LER MAIS

SIGA A REVISTA RAÍZES NAS REDES SOCIAIS