Origem do nome Freixo de Espada à Cinta

São várias as lendas que pretendem justificar a toponímia da vila de Freixo de Espada à Cinta e todas têm algo em comum: uma espada de cavaleiro e um Freixo (árvore da família das oliveiras). Nesta edição damos a conhecer duas delas.

 

Segundo o livro “Os Pelourinhos de Traz-os-Montes – Freixo de Espada à Cinda” de Silva Leal, reza a lenda que um cavaleiro cristão, perseguido por mouros, viu-se em grande perigo de ser atacado e morto pois encontrava-se sozinho e sem protecção. Vendo os inimigos a aproximarem-se, atou a sua espada a um freixo e camuflou-se entre os ramos, esperando um milagre.

A sua fé recompensou-o, pois, os perseguidores, ao verem aquela imponente árvore armada de espada, começaram a fugir em debandada tal era o medo do Freixo de Espada à Cinta.

Outra lenda disponível no Centro de Estudos Ataíde Oliveira conta que o filho de D. Dinis, o príncipe D. Afonso, mais tarde, D. Afonso IV, sétimo rei de Portugal, movido de ciúmes pela amizade que o pai dedicava ao filho bastardo, D. Afonso Sanches, percorria as terras de Bragança, tentando colocar as populações contra o pai e exercendo represálias contra os que lhe permaneciam fiéis.

Sabendo disso, D. Dinis acorreu ao norte, acompanhado dos seus principais cavaleiros, para punir o filho rebelde e acalmar a região.

Andou dias mas sem que conseguisse pôr-lhe a vista em cima. Numa tarde de Verão, de sol abrasador, cansado das longas e penosas jornadas por íngremes veredas, encontrou, à beira do caminho, um freixo secular de enorme copa, cuja sombra o convidava a repousar. Não resistiu ao convite: parou, tirou a espada, pendurou-a num dos grossos ramos do freixo, deitou-se a descansar e adormeceu.

Sonhou que via à sua frente um velho venerando de longas barbas brancas e compridas, cabelos grisalhos, com a sua própria espada à cinta.

Irritado com tal atrevimento, perguntou-lhe, mal-humorado:

– Como te atreveste a pegar na minha espada? Quem és tu? Como te chamas?
O velho, imperturbável, indiferente ao mau humor do rei, respondeu:
– Que importa o meu nome? Já nem eu o sei. Já o esqueci, de há tanto tempo não o ouvir pronunciar. Só sei que também fui um rei célebre como tu, mas hoje esquecido por todos.

Tive exércitos poderosos, venci duras batalhas, conquistei povos sem número. Toda a Europa me caiu aos pés. Fui temido e adulado. Mas, num dia de calor tórrido como hoje, passei por aqui. Deitei-me, debaixo deste freixo, a descansar, e adormeci como tu.
Então, vieram os meus inimigos, tiraram-me a espada, à traição, e com ela a realeza, pois um rei sem espada é como um corpo sem alma. Quando acordei, sem súbditos, sem coroa e sem espada, não me atrevi a sair daqui e transformei-me, por encanto, neste majestoso freixo.

E aqui tenho vivido encantado, até ao dia de hoje, em que tu me vieste, finalmente, desencantar. Obrigado, amigo. Ainda bem que passaste por aqui, pois só tu podias desencantar-me e restituir-me a realeza.

Profundamente comovido e admirado, retorquiu-lhe D. Dinis:

– Como? Que fiz eu, para te desencantar?

– Penduraste à minha cinta a tua espada real, a espada que me faltava para me sentir, de novo, um verdadeiro rei. Mas foi bom ter permanecido aqui todos estes séculos, pois neste silêncio cheio de paz tive tempo para pensar e aprendi mais do que na minha vida palaciana.
Entre outras coisas, aprendi que a glória conquistada pelas armas é efémera e perigosa, pois quem com ferros mata com ferros morre e bem depressa é votado ao esquecimento.
Agora, escuta os meus conselhos. Se não queres ter a minha sorte, não procures a fama na guerra. Deixa a espada à minha cinta e faz as pazes com o teu filho. Não impeças a tua esposa de fazer bem aos pobres e procura fazer feliz o teu povo.

Dito isto, desapareceu.

 

Sonho profético serviu de lição

 

  1. Dinis acordou, esfregou os olhos para ver o seu interlocutor, mas não viu senão o freixo solitário por cima da sua cabeça e os cavaleiros à sua volta, esperando que ele acordasse.

E concluiu que tudo não passara dum sonho, mas um sonho profético que ele procurou tornar realidade.

Deixou de perseguir o filho, e de impedir a esposa de socorrer os necessitados. Tomou medidas para desenvolver a agricultura, o que lhe mereceu o cognome de Rei Lavrador. Fomentou a cultura, fundando a universidade em Lisboa, depois transferida para Coimbra. Contribuiu para o desenvolvimento da língua, ordenando que todos os documentos oficiais fossem redigidos em português, em substituição do latim.
E ele próprio a utilizou com brilhantismo, escrevendo cantigas de amigo e cantigas de amor, o que lhe granjeou o epíteto de Rei Trovador.

Contou aos seus cavaleiros e recordou muitas vezes na corte o episódio que tivera debaixo do freixo, que passou a ser conhecido por freixo de espada à cinta, nome que, depois, passou a designar, por essa razão, a terra mais próxima, hoje a vila de Freixo de Espada à Cinta.

O que é certo é que ainda hoje junto à Igreja Matriz e torre heptagonal que ficou do extinto castelo medieval, existe um velho freixo venerado e estimado pelo povo, por o considerar o mesmo destas lendas.

 

Por Cátia Barreira

A Raízes – Trás-os-Montes e Alto Douro em Revista é um projecto editorial generalista, de âmbito regional, cuja publicação periódica é mensal.

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