Ponte da Misarela ou Ponte do Diabo

A bonita Ponte da Misarela situa-se sobre o cristalino rio Rabagão, em pleno Gerês, perto da Barragem da Venda Nova, mais propriamente no lugar da Misarela, freguesia de Ferral, no concelho de Montalegre. A ponte está associada a uma já famosa lenda, onde o protagonista é o Diabo, daí que muitas vezes esta seja apelidada de “ponte do Diabo”. A Raízes foi saber dessa história.

Reza a lenda que certo dia um criminoso ao fugir da justiça viu-se encurralado nos penhascos sobranceiros ao rio Rabagão. É comum que em tão adversas circunstâncias, se apele à intervenção divina, mas, talvez porque fosse excessivo o peso dos pecados na consciência, o foragido optou por convocar o diabo em vez de uma força positiva.

Assim, foi imediata a aparição do mafarrico, que não esteve com meias medidas na chantagem do costume:

“Salvo-te, claro, se me deres a alma em troca.”

Aceitou o celerado a oferta e, logo ali, com o poder que se lhe conhece, o diabo fez aparecer uma ponte, ligando as margens do rio. Sem olhar para trás, o perseguido atravessou para a outra margem, depois do que o diabo fez desaparecer a ponte.

Salvo o corpo, mas perdida a alma, viria o criminoso a arrepender-se da permuta, pelo que decidiu procurar um frade e contar-lhe o sucedido. “Pecado, meu filho, terrível pecado!”, conjecturou, supõe-se o santo homem, passando, de pronto, ao conselho prático:

“Vais outra vez ao lugar junto ao rio e voltas a chamar o Diabo, tornando a pedir-lhe ajuda para a travessia. E deixa o resto comigo.”

Assim foi feito. O desalmado chama, o cornudo aparece e, com assinalável espírito de colaboração, satisfaz o pedido: a ponte reaparece. O homem começa a atravessá-la e, quando ia a meio, aparece na outra extremidade o frade, que, com largos gestos, asperge água benta. Fica benzida a ponte, que permanece no sítio, esfuma-se o mafarrico e o penitente recupera a alma perdida. Consumava-se, assim, a vitória do Bem sobre o Mal.

A ponte ficou então com um carácter sagrado, e ainda hoje se diz que se algo vai mal numa gravidez, deve a mulher pernoitar debaixo da ponte, e a primeira pessoa que pela manhã passar pela ponte deverá ser o padrinho ou madrinha da criança, que deverá receber o nome de Gervásio ou Senhorinha.

 

Ponte derrubada

Outra lenda conta que a ponte, entre duas aldeias, Frades e Vila Nova, não foi construída pelo Diabo mas sim por homens, no entanto, havia uma maldição que não permitia que ficasse em pé.

A Ponte da Misarela era muito importante para os habitantes das duas aldeias para poderem transportar os animais. Mas sempre que a reconstruiam no dia seguinte aparecia derrubada, uma coisa do demónio.

Os homens já aflitos por não conseguirem manter a ponte em pé foram contar ao padre da freguesia o que ali se andava a passar. O padre, surpreendido e num tom animador, disse:
– Homens, voltai a reconstruí-la, porque desta vez não vai cair.
Pela trigésima vez, a ponte iria ser reconstruída, mas desta vez o padre acompanhou-os, levando um pão benzido debaixo do capote. Quando foi colocada a última pedra, a ponte começou a torcer-se, dando sinais de que iria cair. Então o padre lançou o pão a rebolar pela ponte e disse:
– Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
O diabo, ao ouvir as palavras de Deus, fugiu e a ponte ficou sempre torta como se tivesse o ombro do diabo marcado quando estava a empurrá-la.

Não só aconteceu o milagre do pão como também desde esse dia outro milagre aconteceu: as mulheres que não conseguiam engravidar ou que perdiam os bebés se passassem pela ponte da Misarela levando consigo dois acompanhantes e à meia-noite em ponto estivessem em cima do arco da ponte, conseguiam ter os seus filhos com saúde. Os acompanhantes teriam de se colocar um em cada entrada da ponte para impedirem que nenhum animal passasse, ainda que fosse um rato, pois se assim fosse o milagre não se realizava.

A mulher grávida e os acompanhantes teriam de esperar em cima da ponte até que alguém passasse para baptizar a criança ainda dentro da barriga da mãe. Para o baptizado, levavam um jarro e uma corda comprida e, quando aparecesse a primeira pessoa, pediam-lhe para ser o padrinho ou madrinha da criança.
Então o padrinho ou a madrinha teriam de cortar ao lado da ponte um ramo de oliveira. De seguida lançava o jarro preso na corda abaixo da ponte e com a água que conseguisse colher molhava o ramo e fazia uma cruz na barriga da mãe.

Após o baptizado, regressavam a casa e dali a nove meses o bebé nascia com saúde. E não só nascia o primeiro filho como também outros que o casal desejasse sem necessidade de um tratamento hospitalar. A criança deverá também receber o nome de Gervás se for homem ou Senhorinha se for mulher.

Festa na Ponte da Misarela celebrada anualmente

No mês de Julho voltou a cumprir-se a tradição em Sidrós, freguesia de Ferral, concelho de Montalegre. A “Festa da Misarela” já faz parte do cartaz cultural do concelho e voltou a atrair muitos visitantes.

O simbolismo da Ponte da Misarela é o mote para a já habitual celebração. Várias actividades ao longo de dois dias, com especial destaque para o espetáculo noturno que este ano recriou as três lendas da ponte de forma dinâmica e com uma visão moderna da tradição.

 

A Raízes – Trás-os-Montes e Alto Douro em Revista é um projecto editorial generalista, de âmbito regional, cuja publicação periódica é mensal.

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