Sara Araújo

Os Intermináveis pedidos ao Pai Natal

Hoje é o tempo da falta de tempo. A vida das famílias surge mediada pela relação inevitável com o trabalho, “ladrão do tempo” que retira mães e pais da cena principal na vida familiar e os coloca na azáfama da gestão delicada entre a vontade de investir na família e o pouco tempo para o fazer.
A quantidade e a qualidade do tempo dedicado aos filhos em momentos de presença afetivamente significativos (como a disponibilidade para brincar) está muitas vezes longe de ser o desejável.
Um estudo recente diz-nos que 80% dos pais portugueses com filhos entre os 6 e os 12 anos dizem que ver televisão em conjunto é a principal atividade da família durante a semana (Marktest, 2016). A televisão é companheira durante horas das crianças e, nesta altura do ano, é fácil perceber a inundação massiva de anúncios publicitários astuciosos dirigidos à audiência infantil, tratando as crianças como consumidoras e não como seres em formação.
A publicidade infantil entra da forma mais fácil e normalizada na vida íntima das famílias e tira vantagens das características próprias das diferente fases do desenvolvimento das crianças. Gera padrões como modelos de identificação de atitudes, valores, comportamentos, música, entre outros, visando a criação de desejos que na verdade não são necessários à lógica específica do desenvolvimento emocional e cognitivo de cada criança. E quanto mais intenso o bombardeio de estímulos ao consumo, mais massiva a adesão e indução à necessidade de consumir.
Na correria frenética das compras de Natal, as crianças são as “estrelas da festa”. A compra compulsiva de brinquedos e a busca da satisfação imediata de caprichos e dos intermináveis pedidos ao pai Natal escondem, não raras vezes, a compensação de tempo e atenção, através de uma gestão culposa mediada pela fragilidade dos pais.
É preciso travar as compras compulsivas e os desejos das crianças que estão tantas vezes a sofrer a pressão da publicidade. É preciso moderar, pôr limites, fazer compreender que não podem ter tudo aquilo que querem, mesmo que financeiramente isso seja possível. O desenvolvimento da autonomia, pensamento e recursos emocionais internos das crianças surgem do conflito entre o desejo e a frustração que se experimenta no contacto com a realidade. E este balanço é fundamental a vida toda.
Introduzir o “não” na linguagem dos filhos é necessário desde as fases mais precoces. As crianças têm que aprender a lidar com a frustração quando não podem obter aquilo que querem.
A sociedade de consumo não ajuda a criança a frustrar a sua omnipotência infantil, mas alimenta-a com a sua oferta para gratificar desejos de uma maneira, se possível, imediata. Este modelo não ensina as crianças a aprender a esperar, a esforçarem-se para conseguir o que anseiam e a valorizar e usufruir o que têm. Ter um amontoado de brinquedos pode torna-las incapazes de apreciar o valor de cada um, proporcionando ansiedade e a interiorização de um permanente consumo.

A atividade lúdica é fundamental para o desenvolvimento das crianças, mas em relação aos brinquedos, não é a quantidade mas sim a simplicidade e a disponibilidade afetiva que mais estimulam a fantasia e a criação nas crianças. A capacidade de sonhar (e de crescer) constrói-se sobre a ausência e não sobre o excesso.
Um feliz Natal, com menos brinquedos e com mais tempo de pais, familiares e amigos disponíveis para brincar.

Sara Araújo

É natural de Mirandela, Psicóloga Clínica, membro de especialidade nesta área pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, membro da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica e pós-graduada em Psicoterapias Psicodinâmicas.
Consulta no Hospital Terra Quente e preside a Matiz- Associação para a Promoção da Saúde Mental.

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