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“TORRE DE D. CHAMA” 

Pelourinho_e_Berroa_TDChama

É o título do livro que Ernesto Rodrigues (ER) escreveu em 1994, onde glosa a lenda de Dona Chama, num romance policial, género do seu agrado e domínio, mas também com uma estrutura algo teatral, género também do agrado do autor.
Desde logo esta história tem raízes transmontanas, não só na conhecida lenda, mas também em diversos apontamentos como o de dar início à narrativa com um episódio dos caretos da Torre, diabos à solta nos domingos do mês de preparação da festa chamada de Santo Estêvão.
Ernesto Rodrigues, docente da Faculdade de Letras e Director do CLEPUL, Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa, celebrou em 2015 os seus 40 anos de vida literária, em Bragança e na Torre. A CTMAD promoveu também nesse ano uma tertúlia e ele dedicada, muito concorrida e animada, que coincidiu com o lançamento do seu livro Passos Perdidos, numa Férin cheia de ilustres intelectuais portugueses.
ER é romancista, poeta, cronista, crítico, ensaísta, editor, tradutor do húngaro e participou em 20 antologias. Foi o primeiro Presidente da ALTM, no âmbito da qual publicou, juntamente com Amadeu Ferreira, a Terra das Duas Línguas – Antologia de Autores Transmontanos.
Voltando ao romance Torre de D. Chama, terá o autor querido, assim, homenagear a sua terra natal, nesta data ainda aldeia, mais de um século depois de ter sido vila. Começa assim o romance: “Naquele tempo vivia na torre uma dona formosa como a noite em que nos conhecemos”.
A personagem principal é um professor, José Matias, que se apresenta para tomar posse e é apanhado na teia de um crime, por ser visto no local à hora do assassinato de um jovem. O comandante da polícia e o padre jogaram duas garrafas para o primeiro que descobrisse o autor do crime. E à cautela bebia-se já uma! O padre apostava no confessionário. Acabaram por bebê-la os três com as desculpas do comandante por ter desconfiado do professor e continuando a boa e transmontana recepção o almoço foi na casa do padre.
Enfim, a narrativa prometia e a curiosidade instalou-se nas primeiras páginas.
O autor aproveita a chegada do forasteiro, no seu caminho para a pensão, para apresentar as insígnias da terra: o pelourinho e o “animal totémico”, a famosa berroa (ursa).
A jovem destinada à limpeza da escola deixa o professor perturbado, antevendo-se que vai haver ali caso passional.
Ernesto Rodrigues conhece bem o falar local e logo nas primeiras páginas vai deixando essas marcas da sua infância: beldofreira, sinceno, nem têm onde encostar o barrote (pendurar o pote), carambina, cochicho, a água gelada nos canos, conseguintemente, vasqueiro, febres malinas, carabunha, escaleira, mochos, pão preto, sêmea, sarabanda, dianho, guinchas, enxó, aguilhada, ferrão, engrunhido, lambona, sape gato, passante das quatro, etc., mas também muitos ditos populares, jogos e outras marcas locais.
A lenda lá se continua, sem se acabar, mais à frente, e tem o sabor de uma história picante: “Não me saía da cabeça quanto o senhor Carlos dissera. A implacável mulher. Que de bela só parecia ter o nome, ludibriava os pobres com falsas ofertas enquanto cevava neles instinto carnal sem barreiras”.
Breves alusões à apanha da azeitona, à matança do porco, ao pisoteio das uvas, ao enchimento do fumeiro e às desfolhadas, carreiam para a narrativa uma mais-valia etnográfica, que ajuda a encenar a trama policial que estrutura este romance. Trama que já somava duas mortes por enforcamento, um jovem homossexual e o professor rendido.
Divagações sonhadas de fantasmas, enigmas, mistérios perpassam pelo meio de arremetidas da formosa dona … um anel salvo-conduto pairam no ar, misteriosamente. A fixação do amor da dona da torre instala-se na personagem.
Voltam as marcas da memória com a descrição do ambiente da Feira, do vendedor da banha da cobra, do último horrendo crime cantado pelo ceguinho, do tendeiro e da regateira, dos vendedores do Borda-d’água e do Seringador. Pelo meio as falas machistas dos homens, mais ou menos explícitas, com grossos palavrões, iam criando o clima de paixões platónicas pela Dona Chama.
Entretanto a teia policial fecha-se em torno do forasteiro (professor) que chega a ser acusado das duas mortes. Os seus passos, os seus gestos, tudo se conjuga para o incriminarem. A política, pois então, e o jornalismo de casos, também aparecem aqui enleando-se na teia policial que lentamente e maledicentemente ia envolvendo inúmeros habitantes da aldeia.
O autor, ER, combina bem todos estes ingredientes e traça um caminho onde também se inscreve a vila, Mirandela. Registe-se o facto de o nome da “formosa vila” não ser nomeado no livro.
Entretanto, ainda os corpos das duas vítimas estavam quentes quando surge outra morte, a da ex-prostituta Joana. Cabe aqui referir que a investigação já tinha introduzido a casa de meninas da terra, bem frequentada e cheia de pergaminhos. E a mais mortos correspondia também mais suspeitos, numa lista já longa.
Como não bastasse o marcar passo da investigação somou-se nova atrapalhação ao se verificar que o morto adulto era clandestino, porque o enterraram sem os papéis metidos na vila. Então decidiram o seu desenterramento, alertando a opinião pública para o roubo de um cadáver.
ER escreve neste romance segundo a técnica que o caracteriza, ou seja, as personagens vão sendo introduzidas quase sub-repticiamente, sem grandes caracterizações, por vezes sem nome, que aparece depois lá mais para diante, obrigando o leitor a um jogo de entendimento e procura, com atenção permanente ao cenário dos desenvolvimentos, sob pena de perder a passada e não entender o que se está a passar. É uma espécie de jogo do gato e do rato, que exige memória e dedicação absoluta ao texto.

Texto para ler na íntegra na edição impressa.

Por Jorge Sales Golias

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