Uma mulher de artes

        FMaria Prosa, pseudónimo de Fernanda Maria Fernandes Guilherme, nasceu em São Tomé do Castelo – Vila Real, em Portugal, a 16 de junho de 1973. Tirou a sua licenciatura em Ensino de Letras na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real e chegou a lecionar Português e Francês, mas acabou por enveredar no curso dos seus sonhos… e após conclusão dos seus estudos artísticos, criou o seu próprio espaço de trabalho.

Neste momento, é proprietária de uma Academia de Artes e Letras e galeria de arte – Prosayk, em Vila Real, onde trabalha presentemente, onde cria as suas obras e dá aulas de desenho e pintura, em paralelo, tornou-se presidente de uma associação artística e literária – Revelação Mistério que criou no ano de 2017.

Já falamos, em tempos, sobre esta talentosa pintora, o que não foi abordado, na altura, foi a sua outra vocação, algo demasiado importante para ser deixado passar sem divulgação.

Maria Prosa dedica-se também a algo, não muito comum, por estes lados, dedica-se aos restauros artísticos, daí a se justificar, uma vez mais, falar com esta artista “quase” completa.

“Não possuo nenhum curso técnico, mas possuo conhecimento e arte. Aprendi com bons profissionais. Não tenho um curso teórico, mas tenho um curso técnico e prático”.

 

 

1- Fiquei a saber que a Maria se dedica, também, aos restauros. Afinal o que pode ser restaurado aqui na sua Academia?

“Restauro tudo o que é arte, desde escultura – estátuas, arte sacra, telas (faço desde a limpeza das telas à recuperação parcial ou total da pintura e conservação da mesma, inclusive recuperação de rasgos ou buracos. Trabalho, também, na recuperação de madeiras, dos vitrais, das porcelanas, dos azulejos, dos marfinites, dos gessos…”

 

2- É um trabalho muito minucioso?

“Sim. Quer seja, dentro da recuperação da escultura, quer seja, dentro da recuperação da pintura é, de facto, um trabalho minucioso. Por exemplo, aparecendo uma estátua com membros partidos, eu consigo moldá-la e recuperá-la para que fique como nova.”

 

3- Quando chega uma obra para a Maria restaurar, quais são os métodos utilizados por si, para a recuperação da mesma?

“Primeiro, tenho de analisar a obra, ver o grau de deterioração e danos que esta apresenta, para depois, prosseguir no restauro.”

 

4- Fiquei, bastante admirada, com o trabalho que fez com uma estátua de uma Santa. Foi um trabalho difícil e onde despendeu muito tempo?

“Neste caso, estamos a falar de uma estátua da Nossa Sra. de Lourdes que estava, realmente, em muito mau estado de conservação, do início dos anos 50 ou 60, não apresentava nenhuma fissura ou buraco mas a pintura estava, totalmente deteriorada. O que fiz, neste trabalho, foi recuperar a pintura. Essa estátua, de cerca de 60 cm, tinha pormenores de pintura, muito delicados de fazer, estamos a falar, mais concretamente, de uns dois ou três dias de trabalho, mas, ao ver a reação final, das pessoas, perante o resultado, da recuperação, da sua obra, compensa todo o trabalho e dedicação da minha parte.

 

5- Quem são os seus melhores clientes, em relação a este seu trabalho, são particulares ou entidades públicas?

“São ambos. As entidades públicas ou privadas terão uma maior quantidade de trabalho para me oferecer. Os particulares terão menos quantidade, com pequenos ou grandes objetos partidos mas, muitas vezes, não sabem que existo. Na maioria dessas vezes, possuem objetos, de grande valor sentimental que permanecem partidos ou danificados, por falta de informação e que podem ser, de fácil e barata, recuperação.”

 

6- Muitas pessoas conhecem a Maria como pintora mas, desconhecem esta sua outra arte. Como é que as pessoas descobriram esta sua nova faceta enquanto artista?

“Foi mais através do passe a palavra. Por incrível que pareça, já me dedico a esta arte, desde o ano de 2007, em que abri o meu primeiro atelier e galeria de arte. Inicialmente, começaram a chegar trabalhos individuais de particulares e, posteriormente, comecei a trabalhar com uma casa de antiguidades que me forneceu, algumas obras para restaurar, inclusive pinturas em madeira, que são obras bastante difíceis de recuperar porque, na madeira a pintura estala com muita facilidade. É preciso muita sensibilidade, delicadeza e sabedoria artística, quando se aceita um trabalho desses.”

 

7- Se nessa altura já tinha algum trabalho nessa área, o que fez que começasse a ser menos procurada?

“Foi essencialmente ter, por duas vezes, mudado o meu local de trabalho e não ter comunicado, com os clientes, da altura para onde me mudava. As pessoas foram perdendo o contacto comigo. Entretanto, a casa de antiguidades também fechou e deixei de poder contar com esses trabalhos. É uma falha minha, pois realmente não divulgo muito o meu trabalho.”

 

8- Vejo aqui uma estátua de um anjo que lhe foi entregue com vários membros partidos. Como se faz o “milagre” da recuperação?

“Neste momento, existe no mercado, uma série de materiais específicos que podemos utilizar (massas, pinturas, vernizes, betumes e outros materiais técnicos e/ou específicos), mas, claro que, também, temos de ter o “savoir-faire”, ou seja, saber analisar e reconstruir ou recuperar o que está em falta. Eu faço o meu trabalho, com muito amor e dedicação e com muita delicadeza, pois, é um trabalho artístico que nos obriga a ter uma grande sensibilidade e sabedoria.”

 

9- Confessou, anteriormente que, recuperar trabalhos, em madeira, é dos processos mais difíceis de fazer mas, esse grau de dificuldade aplica-se a todos os trabalhos desde que, sejam em madeira ou algum em especial?

Todos os trabalhos em madeira são, realmente, difíceis. Recuperar pinturas em madeira, mais concretamente. Estes são trabalhos mais complexos que requerem, da minha parte, mais esforço e trabalho.

Dentro dos trabalhos em madeira, existem, contudo, alguns mais simples, com o seu grau de dificuldade, obviamente mas, menos trabalhosos. Por exemplo, fiz em tempos, a recuperação de uma parte de um brasão, em madeira, herdada por uma família me apresentou essa peça (neste caso, estamos a falar de uma peça centenária), que estava em mau estado, com alguns buracos e fissuras que tive de tapar, fiz o tratamento e o isolamento da madeira, onde eliminei o bicho da madeira. Depois deste processo, decidi trabalhar o brasão, onde apliquei folhas de ouro e pintura. Realmente, ficou um trabalho muito bonito.

 

10- Em relação à limpeza das telas. Trata-se de voltar a dar vida e cor à peça?

Posso falar de uma obra que recuperei, em tempos. Tratou-se de uma tela que retratava a figura de S. José e o menino Jesus, uma obra do século XVIII, de enormes dimensões (cerca de 2 metros por 1 metro e meio), uma tela proveniente, provavelmente, de uma Igreja, ou de um palacete. Esta tela foi-me entregue pela casa de antiguidades, com que trabalhava e apresentava uma grande fragilidade de tecido (linho), bem como, um fraco estado de conservação, devido à idade da obra de arte, às humidades, às alterações climatéricas, etc. Foi preciso reforçar toda a tela, de tão deteriorada que estava! A original apresentava um desfasamento de tecido, alguns buracos, rasgos, sujidade e apagamento de pintura. Tive de fazer uma recuperação total da obra, da imagem central e dos planos em volta desta. Estou a falar de uma obra de arte que nos lembra os clássicos de Leonardo Da Vinci. Estas obras são magníficas, supremas e de grande mestria. Depois de recuperadas ficam extraordinariamente belas! Aliás, quando me aparece uma obra destas (e já tive outras, para além desta) eu, benzo-me três vezes, antes de lhe tocar porque realmente, é estar perante uma Obra de arte e um grande mestre de pintura!”

 

11- Uma tela que tenha um rasgo é recuperável?

“Claro que sim. A recuperação vai depender de vários fatores mas, quanto mais velha for a tela, mais difícil será de trabalhar e de recuperar. Para além disso, após essa recuperação terei, sempre, de fazer uma recuperação de pintura. O resultado é sempre muito bom. Claro que, também, é preciso ter em conta os materiais utilizados nessas recuperações, é preciso saber escolher, dosear e trabalhar os produtos, de modo, a não danificar mais a obra que temos em mão. Tudo isto exige muito conhecimento, uma grande preparação e uma enorme delicadeza no trabalho que estamos a fazer, sempre!”

 

12- Quem pode procurar a “ajuda” da Maria?

“Qualquer pessoa que possua, um objeto ou uma obra de arte (tela, escultura ou outros), que esteja danificado e que queiram recuperar. Desde que, as pessoas queiram ver as obras, que amam, serem recuperadas podem procurar-me, pois, eu faço todo este trabalho que envolva a limpeza, os moldes, o restauro, a pintura, a criatividade, etc. Tenho uma casa aberta, não só para entidades públicas ou privadas, mas também para os particulares. Quem me quiser contactar pode fazê-lo, por telefone, mensagem ou e-mail.”

https://www.facebook.com/fmariaprosavr

E-mail : fmariaprosa@gmail.com

Endereço: PROZAYK Academia de Artes e Letras Largo do Pelourinho, 11, 2 andar, Vila Real

Tlm. 938669372

 

 

Ana de Carvalho

A Raízes – Trás-os-Montes e Alto Douro em Revista é um projecto editorial generalista, de âmbito regional, cuja publicação periódica é mensal.

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