Vamos caminhar nas férias de Natal?

Vamos caminhar nas férias de Natal?

Oar de inverno é sem dúvida mais puro e mais revigorante. A chuva não foi abundante infelizmente, mas a beleza das paisagens transmontanas mantêm-se e as geadas já mostram o ar da sua graça. Nestas próximas edições deixamos-lhe alguns troços da Rota da Terra Fria Transmontana. Fica o convite, faça uma Escapadinha de Inverno e perca-se no tempo.

Inverno é tempo de saborear

Por Joana Martins Gonçalves

É Inverno, portanto é tempo de saborear as coisas boas da vida. A começar pela gastronomia, ou não fosse esta a estação em que à mesa reinam os tradicionais pratos de porco bísaro, os enchidos e o fumeiro, e em que o aroma do pão acabado de cozer desperta o apetite a qualquer hora. Aproveite os dias frios para desfrutar do aconchego das lareiras, ouvindo histórias a quem as sabe contar, conhecendo as lendas, memórias e vivências que fazem esta uma região única, em espírito e paisagem. Estamos a apresentar os quase 500 quilómetros do percurso da Rota, que atravessa os concelhos de Bragança, Miranda do Douro, Mogadouro, Vimioso e Vinhais. Esta edição sugerimos o Troço 8 (ver na imagem) entre a aldeia do Zoio e Ousilhão. Vamos agasalhar-nos e caminhar?
CAIXA
Características:

• Extensão: 21.22 km
• Altitude máxima: 989m (entre Zoio e Ousilhão)
• Altitude mínima: 428m (Ponte da Arranca)

Para nos orientarmos nesta rota, acedemos ao site da Rota da Terra Fria Transmontana, onde encontramos detalhadamente todos os passos de cada troço.
Partilhamos aqui o Troço 8:
´Zoio é uma pequena aldeia, a mais próxima do cruzamento da estrada nacional que foi tomada como Porta do oitavo troço da Rota. Aqui poderá visitar a Igreja Matriz, cujo interior é de grande interesse.

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Tome a estrada para Vinhais. Vai subir ligeiramente a encosta do monte do Castro, onde se inicia a descida para Ousilhão. A vista é já surpreendente, com a serra da Coroa como cenário de fundo. À direita, um desvio de três quilómetros leva-o a Vila Boa, numa cumeada sobre a ribeira do mesmo nome e o monte de Santa Comba, mais baixo, mas coroado também por um outro povoado fortificado, ainda com sistema defensivo, que se arrastou ocupado até à Idade Média.
Ousilhão é terra antiga, com vários núcleos interligados por eidos e cortinhas, criados com esforço no solo maninho da portela. Nas encostas, o carvalhal é basto mas o castanheiro é rei, encontrando-se exemplares notáveis pela idade e pelo porte, alguns até rachados pelo peso ou pelos raios. É com a sua madeira que aqui se fazem as célebres máscaras que animam os rituais da Festa de Santo Estêvão – rapazes com gritos e chocalhadas, mascarados a preceito, fazem mofa dos mais velhos em zombeteiras de rua. Se tiver oportunidade de fazer esta visita perto dos dia de Natal poderá assistir a esta tradição bem de perto.
À saída, perto da capela da Senhora da Alegria, foi também há tempos identificada uma villa romana com restos de um templo e até uma árula dedicada a Laesus. É de facto remota a ocupação humana desta região, que regista até insculturas, como se pode ver muito próximo, na Fraga da Pala.

Woman Traveler with Backpack hiking in Mountains

Inicie a descida pelo vale do Tuela. A vista é magnífica e estende-se até à serra da Coroa. Encostas cobertas por matos quando não são cultivadas, talvegues escavados com as linhas de água perfiladas por choupos, amieiros e freixos, carvalhos em mancha densa e castinçais, alguns venerandos, com castanheiros seculares de magnífico porte.
De onde a onde algum vinhedo alegra o afolhamento agrícola nas proximidades das aldeias, como acontece em Romariz, primeira povoação depois de Ousilhão. Aí se indica o acesso ao Santuário de Nossa Senhora dos Remédios (festa a 3 de agosto), uma pequena capela setecentista com um retábulo barroco e duas imagens de roca, confrontando outra, a duzentos metros, dedicada a Santo Agostinho. Ocupa o conjunto o dorso de um ínsula entre a ribeira da Amiscosa e um seu afluente, a 650 metros de altitude. O local, ermo e aberto, vale pela panorâmica que dele se goza. Em frente, a meia encosta, a vila de Vinhais.
O regresso do Santuário faz-se por uma outra estrada, semelhante à que lá o levou e sai a Nunes, um pequeno povoado à beira da estrada, pouco maior que Romariz, mas com uma

interessante igreja paroquial. Festa das Nozes a 16 de setembro) Foi este um dos locais escolhidos para instalar uma Cozinha Rural dedicada ao fumeiro tão característico desta região, que utiliza a carne do porco bísaro, um cevado corpulento de cabeça comprida e cerdas grossas, engordado com as bolotas e castanhas da região.
No arvoredo continua a pontificar o castanheiro-bravo, enxertado, velho, jovem ainda, isolado ou em souto. Está, pode bem dizê-lo, em sua própria casa.
A estrada passa o Tuela na Ponte da Ranca, uma ponte medieval com cinco arcos de volta redonda, com talhamares, sobre um belíssimo trecho do rio, com mouchões cobertos de choupos e amieiros. É local de pesca e de lazer, onde no verão muita gente merenda ou se vem banhar. Curiosamente, pode referir-se que a estrada romana que passava aqui perto no seu percurso entre Chaves e Astorga, vencia este rio, não neste local, mas mais a montante. Dessa ponte conservam-se ainda vestígios dos seus arranques, mas no esporão sobranceiro à Ponte da Ranca, no local conhecido por Crasto, na margem direita, há também indícios de um povoado fortificado da mesma época, como o são outros, um pouco mais acima, já na entrada de Vinhais.
A paisagem é agora completamente diferente do planalto que deixou em Ousilhão. A bacia do Tuela, com encostas nalguns casos acentuadas, é irrigada por muitas linhas de água subsidiárias daquele rio, que determinam uma modelação de relevo variada, com colinas e outeiros de cume arredondado.
É neste cenário que cruza o rio e vai iniciar a subida para Vinhais. As encostas pedregosas estão cobertas de matos rasteiros, de urze, de estevas e de rosmaninho, arroteadas quando o afolhamento é favorável para plantação de novos castanheiros, de vinha e mesmo de oliveiras, que aqui surgem em quantidade apreciável.
Ao deixar Vinhais, antes de prosseguir a Rota, uma visita ao Parque Biológico de Vinhais é quase obrigatória para quem queira conhecer o património Natural da região.
Retome a Rota e, reconfortado com a visita, tome a estrada de Chaves. Passe o Rio de Trutas e logo alcança Soutelo e aí a indicação de Sobreiró de Baixo, dois núcleos pequenos e modestos, edificados em xisto, cada um do seu lado da ribeira do mesmo nome. Por aqui passou a Via XVII do Itinerário de Antonino, via romana que estabelecia a ligação entre as duas capitais conventuais do noroeste peninsular – Asturica Augusta (Astorga) e Bracara Augusta (Braga) e que ainda na Idade Média conduziu muitos peregrinos a Santiago de Compostela, seguindo um percurso que está atualmente a ser revitalizado como o braço português da Via de La Plata. E a prová-lo lá se veem as inconfundíveis setas amarelas que em qualquer local da Europa identificam um itinerário jacobeu.
Mas o oitavo troço da Rota não se conclui em Sobreiró de Baixo, mas em Sobreiró de Cima. Volte, por isso, a Soutelo e retome a estrada. Pouco mais falta que um quilómetro puxado.’
Uma proposta da Terra Fria Transmontana que pode fazer em família numa tarde de Inverno.

“Revista muito informativa e simples de ler. ”

A Raízes – Trás-os-Montes e Alto Douro em Revista é um projecto editorial generalista, de âmbito regional, cuja publicação periódica é mensal.

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